sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Ontario e a revolução cervejeira

Lunatic Fridge e Dead Elephant, marcas de pequenos à venda em loja do LCBO
É quase meio dia de domingo quando entro na loja de bebidas no bairro de Yorkville, na região norte de Toronto. Apesar do parque de diversões etílico à minha volta, o que me atraía até ali era a fome – não havia nada mais perto e eu queria ver se encontrava pelo menos um pacote de batata frita para enganar o estômago até o almoço, algumas horas à frente. Do lado de dentro da LCBO Store, logo depois da linha de caixas, uma moça com expressão entediada se apoiava no pequeno estande de degustação de uma marca de vinho espanhol, cercada por vasilhas cheias do que naquele momento me pareceram pedaços extremamente apetitosos de queijo e pão.
Eu me aproximo e depois do “bom dia” ela me pergunta se eu prefiro branco ou tinto. Aponto meu preferido e antes que ela consiga terminar de servir a pequena taça já engoli dois pedações de queijo com pão. Enquanto a moça listava os sabores que eu deveria perceber no vinho (“black currants, vanilla, berries...”) aproveitei para me servir de mais pão e queijo. Caprichei na pose de gourmand e tasquei elogios à estrutura, maciez, ao final prolongado e aos taninos do tinto espanhol, enquanto improvisava mais um mini sanduíche com os petiscos. Agradeci e ameacei me retirar.
“I’m sorry, sir, but you can not leave this area” (Me desculpe, mas o senhor não pode sair dessa área), escuto ela dizer, apontando para as minhas mãos.
Sorrio envergonhado, desconfiando que talvez eu tivesse ultrapassado tanto o limite da gula que ela ia me cobrar um extra pelos aperitivos. Mas não era isso. A moça apontava para o cálice de plástico, ainda cheio até a metade de vinho: “You’ll have to finish it here, sir” (O senhor vai ter que terminar isso aqui).
Surpreso e aliviado ao mesmo tempo, corro o olhar ao meu redor. A loja está quase vazia, com exceção de um casal jovem, indeciso sobre a marca de cider para acompanhar o almoço de domingo. Comento com a moça que as regras canadenses sobre o consumo de bebida me pareciam um pouco exageradas. Afinal, ao nosso redor havia corredores e mais corredores de todo tipo de produto alcoólico imaginável – e nenhuma criança ou menor de idade à vista para ser influenciado pela minha inocente taça de vinho.
“Well, sir, you know… If it’s not like that young people will always abuse themselves.” (Bom, senhor, você sabe… Se não for assim os jovens vão sempre abusar.)”
Mais ou menos rígidas, as decisões regulatórias sobre venda e consumo de álcool no Canadá são estaduais (provinciais, para ser mais exato). Nas províncias de Alberta, Manitoba e Quebec, por exemplo, a idade mínima para beber é a mesma do Brasil (18 anos), mas nas demais é preciso ter completado 19. A forma como a bebida é comercializada também tem variações regionais. Ontario, a província mais rica e populosa do país (concentra cerca de 40% da população e uma fatia equivalente do PIB) colocou em prática um novo modelo no início do ano, com a expectativa de ampliar em 30% o número de pontos de venda por aqui. O efeito, veremos, é semelhante ao de adicionar açúcar à fermentação - e acelerar a revolução cervejeira já em curso por aqui.
Em Ontario não se vende bebida alcoólica em mercados, supermercados, lojas de conveniência ou postos de gasolina, como no Brasil. Desde 1927 (quando a província encerrou sua experiência com a Lei Seca), regular a comercialização do álcool no varejo é atribuição do poderoso LCBO (Liquor Control Board of Ontario). Além dos bares e restaurantes, se você quiser consumir uma lata de cerveja por aqui há apenas três opções: visitar uma das lojas do LCBO (todas estatais), ir a uma TBS (The Beer Store, de que vamos tratar logo mais) ou encontrar uma loja das próprias cervejarias (são poucas, com exceção dos grandes fabricantes a lei permite apenas um ponto de venda por cada planta instalada em Ontario).

Lucro líquido


Fachada de uma das lojas do LCBO, na zona sul de London 
Se vale a pena para o governo se intrometer na venda de bebida? Bom, em toda a província de Ontario existem 650 lojas do LCBO. No ano fiscal 2015-16 (que no Canadá vai do começo de abril até o final de março do ano seguinte) essas lojas faturaram 5,6 bilhões de dólares canadenses (cerca de R$ 13,8 bilhões) – a receita foi 7% maior que nos 12 meses anteriores, o 22º ano seguido de crescimento. Nesse período, pela primeira vez na história uma única loja do LCBO superou os 50 milhões de dólares canadenses em vendas anuais (51,5 milhões de dólares canadenses para ser preciso, algo na faixa dos R$ 127 milhões), feito alcançado por uma unidade de Toronto à beira do Lago Ontario,
Desse faturamento, nada menos do que 1,9 bilhão de dólares canadenses (R$ 4,7 bilhões) vai direto para os cofres de Ontario na forma de um dividendo anual, dinheiro que a província aplica em saúde, educação e infraestrutura. Pequeno detalhe: isso ainda não inclui os impostos cobrados sobre as bebidas que são destinados às provinciais, que no caso da cerveja em Ontario equivale a mais ou menos 30% do valor de face do produto.
Por que então mexer em um sistema que rende tanta receita à província? Porque o governo de Ontario entende que é preciso dar mais espaço para as pequenas cervejarias. As mudanças começaram em janeiro, mas para compreender como se chegou ao modelo semi-estatal de venda de bebida alcoólica no varejo que agora está sendo reformado é preciso dar uma passada rápida pela história.

Receita médica para beber


A produção comercial de bebidas alcoólicas no Canadá é tão antiga quanto a chegada dos colonizadores europeus, mas ganhou embalo extra nos anos 60 do século retrasado, quando a Guerra Civil Americana praticamente interrompeu a produção de whisky nos Estados Unidos e abriu espaço para o similar canadense expandir-se internacionalmente – dizem que até a Rainha Victoria tomava uma dose toda noite, alegando que o produto tinha “efeitos medicinais”.
As primeiras medidas restritivas ao consumo do álcool surgiram durante a Primeira Guerra Mundial, em 1914, sob a justificativa de que limitar a venda reduziria o desperdício e a distração, aumentando a eficiência das operações industriais dedicadas ao esforço de guerra britânico. Em 1916, foi aprovado o Ontario Temperance Act, que proibia totalmente a venda de qualquer bebida alcoólica na província – a produção e transporte desses produtos ainda permaneceram permitidos até 1918, quando essas atividades também foram restringidas.
Daí em diante a única alternativa para tomar um drink em Ontario era dirigir-se a uma farmácia ou consultório, munido de uma receita médica. Parece que era uma doença bastante comum e que se alastrava rápido, porque só em 1920 os doutores emitiram 650 mil receitas para esse fim.
Uma das maiores unidades do LCBO em Toronto
Encerrada a Primeira Guerra, logo em 1919 uma tentativa de estender a proibição de consumir bebidas alcoólicas a todo o Canadá fracassou. Nesse mesmo ano um referendo foi realizado em Ontario para decidir se comprar álcool deveria seguir proibido na província - uma maioria folgada de 400 mil votos deu a vitória ao lado abstêmio. Dois outros referendos semelhantes foram realizados para esse mesmo fim (em 1921 e 1923), com mais dois triunfos dos anti-bebida. Em 1927, um candidato a governador colocou o fim da proibição como um dos pontos chave da sua campanha - e foi eleito. Howard Ferguson cumpriu a promessa e criou o LCBO, o órgão através do qual até hoje o poder público gerencia diretamente a distribuição de bebidas alcoólicas, além de influenciar na regulação.
No começo eram apenas 16 lojas e outros três escritórios que recebiam pedidos pelo correio, além de quatro centros de distribuição. Para ter direito a comprar bebida os habitantes de Ontario precisavam ter um Liquor Permit, uma licença que custava anualmente 2 dólares canadenses. No final do primeiro ano, o LCBO já administrava uma rede de 86 lojas.
Essa foi uma era dourada para a indústria do turismo de Ontario. Nos Estados Unidos a proibição continuava vigente desde os anos 1920, ao mesmo tempo oferecendo condições ideais para o fortalecimento dos primeiros sindicatos modernos do crime organizado e estimulando americanos dos estados vizinhos de Nova York e Michigan a cruzar a fronteira para passar as férias legalmente inebriados junto aos vizinhos do norte. Mas o movimento durou pouco, porque em 1934 os americanos perceberam o equívoco e encerraram seu experimento com a Lei Seca.
Nas décadas que se seguiram, pouca coisa mudou em Ontario em relação à comercialização de álcool no varejo, pelo menos até esse ano. Em janeiro a província resolveu tomar uma decisão ousada, autorizando gradualmente a venda de cerveja nas chamadas grocery stores (mercados e estabelecimentos afins), um dos pontos-chave de um detalhado plano que ficou conhecido como New Beer Framework. Para chegar a essa decisão, no entanto, foram meses de planejamento.

Energia e bebida em pé de igualdade


Loja da The Beer Store, localizada na área central de London
Tudo começou em novembro de 2014, quando o Advisory Council on Government Assets, uma espécie de conselho da província formado por especialistas em negócios e políticas públicas, apresentou um relatório inicial intitulado “Retain and Gain: Making Ontario’s Assets Work Better for Taxpayers and Consumers” (algo como “Manter e Ganhar: Fazendo os Ativos de Ontario Trabalharem Melhor pelos Contribuintes e Consumidores”). Liderado por um presidente aposentado de um dos maiores bancos canadenses (Ed Clark, do TD Bank), esse conselho tem a função de monitorar continuamente o patrimônio público de Ontario, sempre à procura de estratégias para otimizar o retorno que esses ativos podem oferecer à população – o que eles consideram “retorno”, como vamos ver, não se limita apenas à arrecadação de impostos.
O tal relatório propunha mudanças para dois setores da economia vistos por eles como muito importantes, colocados em pé de igualdade: o setor elétrico e a distribuição de bebidas alcoólicas. Depois de examinar as recomendações, o governo da província autorizou o Conselho a partir para a Fase 2. Reconhecendo a complexidade do assunto, os especialistas decidiram se aprofundar em uma das pernas sobre a qual a venda de bebidas alcoólicas no varejo está assentada por aqui: as TBS (The Beer Stores).
Esse é o nome fantasia de um negócio que surgiu como uma cooperativa, autorizado a funcionar pelo governo provincial no mesmo ano de criação do LCBO, 1927. Com o tempo, seu controle acabou consolidado nas mãos das três maiores cervejarias canadenses: Molson Coors, Labatt e Sleeman.

Câmara fria e um computador


Existem 450 lojas da TBS em Ontario e a experiência de visitar uma delas é esquisita – na verdade são quase depósitos, que além de distribuir cerveja para bares e restaurantes também vendem ao público. Você se depara basicamente com um operador de caixa diante de um computador, à frente de uma câmara fria, e uma ou duas geladeiras daquelas que costumam ser usadas para armazenar frios no Brasil, em que algumas marcas de cerveja ficam à vista. A maior parte do que eles têm à venda, porém, fica escondido do consumidor, dentro da câmara fria. Algumas unidades contam com terminais informatizados em que o cliente pode pesquisar o estoque para escolher o que vai comprar, mas isso não permite manusear os produtos para ler os rótulos, por exemplo.
Interior de uma loja atual da TBS em London: um computador, a operadora e a câmara fria
O Conselho reconheceu que o sistema da TBS é “eficiente e relativamente de baixo custo”, mas alertou que a “experiência de consumo precisa ser melhorada”. Há um problema mais grave, porém. Por ser controlado pelas três maiores cervejarias, os conselheiros observaram que o negócio têm potencial para ser “inerentemente parcial” – é difícil imaginar que esses gigantes não se sintam ao menos tentados a privilegiar as próprias marcas em detrimento das dos concorrentes.
Há mais um detalhe: o controle das três grandes cervejarias não está mais em mãos canadenses. A que chega mais perto disso é a Molson Coors – depois da fusão com a norte-americana Coors, em 2005, a companhia resultante manteve ações negociadas nas bolsas de Nova York e Toronto, além de sedes regionais separadas, em Denver (Colorado) e Montreal (Quebec), mas oficialmente a nova empresa está incorporada nos Estados Unidos.
A Labatt foi fundada em 1847 por um imigrante irlandês, em London (Ontario), mas os belgas da Interbrew a compraram em 1995, por US$ 4 bilhões (em torno de R$ 13 bilhões). Em 2004, a Interbrew se fundiu com a Ambev através de uma troca de ações, o que criou a AB Inbev. Hoje a mesma gigante que domina o mercado brasileiro de cerveja controla a maior cervejaria de Ontario.
A Sleeman foi criada em 1834, por um empresário que batizou o negócio com o próprio sobrenome. A companhia teve sua licença para vender cerveja revogada pelo governo canadense em 1933, por contrabandear bebida ilegalmente para Detroit durante os anos da Lei Seca nos Estados Unidos. Em 1988, o negócio foi ressuscitado por um tataraneto homônimo do fundador, com produtos baseados nas mesmas receitas originais. Em 2006, a cervejaria foi comprada pelos japoneses da Sapporo, por 400 milhões de dólares canadenses (cerca de R$ 1 bilhão).

Mais espaço para os pequenos


Considerando tudo isso, a proposta apresentada pelo Conselho ao governo foi devolver à TBS o caráter cooperativo da década de 20, abrindo a possibilidade de comprar uma participação no negócio a qualquer fabricante de cerveja baseado em Ontario, desde que tenha capacidade mínima de produzir 1 milhão de litros por ano e produção efetiva de 250 mil litros anuais. Ficou definido que as cervejarias menores poderão comprar ações a um preço fixo, negociado pelo governo com as três controladoras - a ideia é que ao longo do tempo essa participação seja proporcional ao volume de cerveja vendido pelos novos acionistas nas lojas da TBS.
A maior fábrica da Labatt no Canadá, que fica em London 
Embora as três grandes continuem a ser controladoras e responsáveis pela gestão, os novos sócios terão direito de participar através de uma nova estrutura de governança, com a criação de um Board que dará voz aos pequenos através de quatro membros independentes, escolhidos inicialmente com participação do governo da província. Daí em diante, novos conselheiros independentes serão escolhidos pelo voto majoritário dos próprios independentes já presentes e a província terá o direito de pedir o afastamento de qualquer um deles.
Esses independentes terão papel-chave na governança. Políticas decisivas relacionadas a princípios de preço e marketing exigirão a aprovação por maioria dos conselheiros independentes. Qualquer transação entre a TBS e seus controladores também exigirá a aprovação por maioria dos independentes e precisará ser aberta a auditoria. Por fim, todos os comitês formados no Conselho terão de incluir pelo menos um conselheiro independente.
Os quatro independentes elegerão entre si um conselheiro que terá o voto de minerva no caso de empate em alguma decisão e ainda escolherão um ombudsman, que se reportará diretamente ao Board, exclusivamente para ouvir reclamações das cervejarias e dos consumidores.
Mas além da governança, na prática o novo modelo cooperativo da TBS vai aumentar a exposição das marcas das pequenas cervejarias. Hoje as The Beer Stores delimitam o espaço que as cervejarias ocupam nas prateleiras, o envolvimento delas em ações promocionais e de marketing com base na participação de mercado que as marcas têm na província de Ontario. Apesar de razoavelmente justo, o Conselho entendeu que essa prática tende a manter estável a presença de mercado das marcas já existentes e limitar a capacidade de crescimento dos novos participantes. Trocando em miúdos, para os pequenos é pequena a possibilidade de aparecer nas gôndolas, mesmo que eles estejam crescendo a uma taxa acima da média.

No mínimo 20% das prateleiras


O Conselho descobriu que atualmente as pequenas cervejarias ocupam cerca de 7% do espaço em prateleira e têm participação semelhante nas ações de marketing da TBS. Agora, sob o New Beer Framework, essa taxa obrigatoriamente terá de ser no mínimo de 20%.
As razões para tomar essa decisão passam longe de simples caridade. O mercado das craft beers (que no Brasil equivale ao que chamamos de “cervejas artesanais”) cresce com vontade no Canadá. Números do Beer Canada, um órgão criado pela indústria para compilar dados sobre o assunto, atestam a revolução cervejeira em andamento: em 2015 o país contava 640 cervejarias licenciadas, mais do que o dobro do que existia cinco anos antes.
A carga tributária sobre o produto no Canadá é elevada - 50%, comparado a 40% nos EUA e 21% na Alemanha, mas ainda menos do que pagamos no Brasil, 56%. Mas não há muitos motivos para reclamação. O setor emprega diretamente quase 12 mil pessoas e a cada dólar canadense gasto com cerveja registra-se um impacto de 1,12 dólar canadense no PIB. Não é à toa: quase 85% da cerveja consumida no Canadá é produzida localmente.
Modelo de uma loja reformada da TBS, com os espaço garantido para as pequenas cervejarias
Em resumo, o que o Conselho de Ontario percebeu é que o setor gera renda e emprego, concluindo que os novos participantes do mercado (as cervejarias pequenas) merecem ser protegidas - não só porque apresentam as maiores taxas de crescimento, mas porque oferecem maior potencial de criação de postos de trabalho na província. Para ampliar o acesso delas ao mercado, o New Beer Framework propôs transformar a TBS em um negócio auto sustentável, administrado com base no equilíbrio entre custos e o fluxo de caixa. Em outras palavras, as taxas cobradas das cervejarias para vender e distribuir os produtos terão que refletir integralmente o custo de gerenciar o sistema, dentro do modelo cooperativo.
Como as cervejarias menores são menos capazes de sustentar os custos de levar suas marcas ao mercado, para elas as taxas cobradas pela TBS serão mais baixas, seguindo um padrão equitativo e progressivo, mais ou menos como funciona a cobrança de imposto de renda da pessoa física – quem ganha mais, paga proporcionalmente mais. Em resumo, os pequenos terão seus custos de venda e distribuição reduzidos em 10%, enquanto as cervejarias médias perceberão uma queda de 5%.
Mas para permitir que a exposição das cervejarias menores de fato se materialize e a experiência de compra do consumidor melhore, o Conselho notou que era essencial modernizar as lojas da TBS, para que deixassem de ser os quase depósitos atuais e se transformassem em pontos de venda de varejo adequados. Para isso, a The Beer Store teve de se comprometer com um plano de investimento de 100 milhões de dólares canadenses (cerca de R$ 250 milhões) para os próximos quatro anos, a serem gastos na reforma das unidades existentes. As lojas reestilizadas funcionarão em um sistema self-service, em que o comprador poderá ver – e manusear - as latas e garrafas de cerveja diretamente nas prateleiras e geladeiras.

Grocery stores


Para os novos pontos de venda autorizados em Ontario – as grocery stores, isto é, os mercados, supermercados e afins -, também valem as mesmas regras de garantia de 20% do espaço nas prateleiras para as cervejarias pequenas. O plano é emitir ao todo 450 licenças, em um processo gradual. Até setembro, havia na província 60 lojas licenciadas, com mais dez previstas até o final do outono, atingindo 150 unidades com cerveja à venda até maio do ano que vem.
Obter a licença, porém, não é tão fácil assim. Primeiro é preciso obedecer a uma série de regras, da limitação de horário de venda de cerveja (permitida só de segunda a sábado, das 9h às 23h, e nos domingos das 11h às 18h) ao treinamento rigoroso dos funcionários (para checar a idade do consumidor e até saber identificar se o comprador está alcoolizado, situação em que a lei não permite a venda). Há ainda um limite no volume de vendas fixado em 1 milhão de dólares canadenses (R$ 2,5 milhões) mensais por loja.
Os mercados só poderão vender a bebida em embalagens com até seis unidades. Os pacotes com 12, 24 ou mais latas e garrafas estão vetados, assim como é proibido oferecer desconto por volume adquirido (por múltiplos six-packs, por exemplo). Para conseguir a licença também é preciso pagar: entre 3.000 e 7.000 dólares canadenses (R$ 7.500 e R$ 17,5 mil) por ano, dependendo do porte do comércio.

Toboggan ladeira acima


Rick Doyle, com um dos growlers da Toboggan em mãos
E como os fabricantes de cervejas artesanais enxergam as mudanças? Fui atrás de um canadense de meia idade que fez carreira na indústria cervejeira para buscar a resposta. Rick Doyle trabalhou durante 13 anos em uma das três gigantes (a Molson), onde ocupou diversos cargos da área de vendas. Na segunda metade dos anos 90 ele assumiu uma vice-presidência na Molstar Sports & Entertainment (o braço da cervejaria ligado aos esportes), e durante quatro anos foi o responsável por negociar os contratos da Molson com os eventos de Fórmula Indy no Canadá, para as corridas que na época se realizavam nos circuitos de Toronto e Vancouver.
Doyle entrou no mundo das craft beers em 2008, quando foi contratado pela Big Rock Brewery, uma pequena cervejaria criada por outro canadense de meia-idade. Insatisfeito com a qualidade da cerveja que encontrava disponível em Calgary (Alberta) nos anos 80, Ed McNally resolveu começar a fabricar a própria bebida. Doyle chegou para ajudar a profissionalizar o negócio, desenvolvendo planos anuais de venda e orçamentos para os três principais mercados da cervejaria - as províncias da Costa Leste canadense, Manitoba e Ontario, onde até então a Big Rock perdia dinheiro.
Doyle conseguiu reverter o prejuízo de Ontario (2,2 milhões de dólares canadenses em 2008), deixando uma geração de caixa anual de 500 mil dólares canadenses ao sair, em 2013. Ele gostou tanto do que viu no mercado etílico da província que dois anos depois encontrou um sócio e resolveu abrir a própria cervejaria, a Toboggan.
O negócio abriu as portas em maio de 2015, pensado como um brewpub – em resumo, um pub que além de servir comida fabrica a própria cerveja. As instalações na região central de London, porém, foram planejadas pensando mais à frente, de olho no mercado de varejo, em especial na abertura que o LCBO oferece aos pequenos produtores.
Atualmente a Toboggan fabrica dez tipos de cerveja e três variedades de cider (uma bebida alcoólica fermentada da maçã). Desde o início o brewpub vendia o que produzia no próprio local - inicialmente em growlers, os garrafões com nome chique que os cervejeiros tanto gostam. A partir de junho deste ano, porém, Doyle começou a comercializar uma das suas cervejas nas lojas do LCBO - a Lunatic Fridge, que aparece na primeira foto desse post. A India Pale Ale está disponível ao consumidor em latas de 473 mililitros, decoradas com a psicodélica “Geladeira Lunática” que dá nome à bebida.
Fachada da Toboggan, na Richmond Street, no centro de London
Doyle diz estar “bastante satisfeito” com a experiência varejista. Não é para menos, passados quase seis meses a “Geladeira Lunática” já chega a boa parte da região sudoeste de Ontario, ocupando as prateleiras de 28 lojas do LCBO. Nesse período a distribuição varejista ajudou a puxar um aumento de 60% na produção da Toboggan, que está em 160 mil litros anuais. O varejo hoje responde por 20% das vendas do brewpub, mas a tendência é que essa fatia aumente em breve.
Pergunto como ele enxerga as mudanças propostas pelo New Beer Framework. Os olhos de Doyle brilham quando ele fala das grocery stores. “Isso vai causar um impacto dramático no mercado e a razão é simples: conveniência,” explica. “Em outras palavras, comprar cerveja no mercado significa uma viagem a menos para o consumidor e isso vai fazer com que ele compre mais.”
O proprietário da Toboggan não mostra o mesmo entusiasmo em relação à reforma das The Beer Stores, ainda que os custos diminuam e haja mais espaço garantido para os cervejeiros menores. “Mesmo que as lojas se tornem mais atrativas, não acredito que a TBS vai ter capacidade ou até estrutura física para lidar com tantos fornecedores”, diz.
Doyle conta que as cervejas da Toboggan ainda não estão disponíveis em nenhuma grocery store, mas já há negociações em curso.

Quebec e Alberta


Antes de tomar a decisão de reformar o sistema de venda e distribuição de cerveja no varejo em Ontario, os conselheiros se dispuseram a fazer uma análise detalhada de outros modelos existentes no Canadá. A conclusão a que eles chegaram é que havia pontos positivos e negativos no formato vigente na província desde 1927 – e que colocar tudo abaixo trazia mais riscos do que possíveis benefícios.
Um dos exemplos estudado por eles foi o posto em prática em Alberta, a gigantesca província das pradarias do centro-oeste canadense. Lá o governo começou a privatizar completamente a distribuição de bebida em 1993. Atualmente, liquor stores podem comercializar qualquer tipo de bebida - mas devem vender exclusivamente álcool e não podem se estabelecer dentro de shopping centers ou outros centros comerciais. Existem cerca de 1.300 delas, sem a definição de um limite no número de licenças emitidas.
Um dos resultados do modelo é que em Alberta os preços da cerveja são os mais altos do país, cerca de 40 dólares canadenses (R$ 100) por uma caixa com 24 latas. Desse total, em torno de 10 dólares canadenses (R$ 25) são revertidos em imposto diretamente para a província. Na avaliação do Conselho, a combinação de taxas relativamente elevadas, ausência de limitação no número de lojas e exigência de serem exclusivas para bebidas alcoólicas são as razão dos preços altos.
Modelo de como deve ser a estrutura nas grocery stores autorizadas a vender cerveja em Ontario 
Outro modelo analisado pelos conselheiros foi o adotado na British Columbia, a província do noroeste onde está Vancouver. Por lá existe um sistema de distribuição parcialmente privatizado, com 400 lojas estatais e 670 privadas. O BCLDB (British Columbia Liquor Distribution Board, equivalente ao LCBO de Ontario) é responsável por fornecer os produtos para as lojas privadas, a um preço mais baixo do que o oferecido ao consumidor.
Como em Alberta, o grande número de lojas e a exigência de exclusividade para o álcool elevou os preços ao consumidor. Na British Columbia uma caixa com 24 latas de cerveja custa os mesmos 40 dólares canadenses (R$ 100), mas a arrecadação de impostos para a província é maior: 12 dólares canadenses (R$ 30).
Por fim, os conselheiros se voltaram para o modelo do Quebec. O modelo em vigência na província que fala francês no leste do Canadá é o mais liberal de todos. Cerveja pode ser encontrada em cerca de 8.000 pontos de venda, incluindo mercados e lojas de conveniência. Os preços são definidos por esses revendedores, com base na demanda e concorrência.
Como resultado, o que os moradores de Quebec pagam por uma caixa de 24 latas é semelhante ao que se vê em Ontario, em torno de 35 dólares canadenses (R$ 87,50), mas o volume de recursos arrecadados em impostos é proporcionalmente bem menor – 8 dólares canadenses (R$ 20), comparado aos 11 dólares canadenses de Ontario (R$ 27,50).
Por fim, a opção do Conselho ao formular o New Beer Framework foi perseguir o equilíbrio: manter a arrecadação de impostos, ampliar o espaço no mercado e reduzir custos para as pequenas cervejarias, aumentar o número de postos de distribuição e melhorar a experiência de compra do consumidor de cerveja e combater o conflito de interesses no segundo maior distribuidor de bebida no varejo da província (a TBS). Tudo isso só através de planejamento e esforço regulatório.