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| Rainha Elisabeth II, até hoje na nota de 20 dólares |
Lá vamos nós de novo. Mais um ano fora do país, dessa vez no Canadá, um lugar que para a maioria dos brasileiros remete a uma combinação de clichês que inclui frio polar, ursos enormes, hockey no gelo e uma área territorial descomunal em relação à população. Mas será só isso? Suspeito seriamente que não. O objetivo desse blog é justamente tentar descobrir – e revelar - um pouco mais da realidade desse semi continente que ocupa a metade superior da América do Norte.
Quase todo clichê tem um fundo de verdade. O Canadá é mesmo gigantesco, o segundo maior país do globo terrestre em área (quase 10 milhões de quilômetros quadrados), com nada menos do que seis fusos horários diferentes. Se ocupa quase 7% da área terrestre, a população soma meras 36 milhões de almas, menos do que o Estado de São Paulo. A densidade demográfica, obviamente, é baixa: 4 habitantes por km2. Para efeito de comparação, a do Brasil é de 24 pessoas/km2.
Apesar de todo esse tamanho, administrativamente o Canadá se divide em apenas dez províncias e três territórios, que juntos formam a 14ª maior economia mundial e detêm o nono melhor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do planeta. É um país novo, cuja unidade embrionária foi lançada só em 1867, quando o temor de uma anexação pelos Estados Unidos ajudou a forjar uma confederação.
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| Wortley Village, nosso novo bairro em London (Ontario) |
Ex-colônia francesa e britânica, o Canadá tem duas línguas oficiais (inglês e francês, falado majoritariamente só na província de Quebec) e até 1982 ainda dependia da ratificação do parlamento britânico a qualquer lei de maior importância. Até hoje se trata de uma monarquia constitucional, com a Rainha Elisabeth II (do Reino Unido) ocupando a posição de chefe de Estado e o destaque na nota de 20 dólares canadenses.
A proximidade com os britânicos historicamente arrastou os canadenses a todos os conflitos em que o Império se meteu ao longo dos séculos XIX e XX, da Guerra dos Bôeres na África do Sul à Primeira Guerra Mundial, quando 625 mil soldados cruzaram o Oceano para lutar na Europa (e 60 mil deles não voltaram). Na Segunda Guerra Mundial o Canadá forneceu mais 1,1 milhão de homens à rainha, responsáveis, entre outras batalhas, pela tomada da praia de Juno, uma das cinco frentes de desembarque na Normandia durante o Dia D.
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| Os gansos de London (Ontario) |
Na história recente, o Canadá tem se destacado por uma ofensiva liberal sem precedentes, sob a liderança de um jovem primeiro ministro, Justin Trudeau. Hoje com 44 anos, ele se tornou a segunda pessoa mais nova a ocupar o cargo, depois de liderar seu partido em uma triunfal volta ao poder, em outubro de 2015. Foi uma vitória folgada, em que os liberais conquistaram 184 das 338 cadeiras do parlamento, garantindo uma maioria sólida depois de dez anos consecutivos de governos conservadores.
Nascido na capital Ottawa (Ontario) e filho de um ex-primeiro ministro que comandou o Canadá por 16 anos (Pierre Trudeau, entre 1968 e 1984), Justin Trudeau tem uma formação no mínimo curiosa: trabalhou como advogado, professor de teatro e de francês, antes de entrar para a política, em 2000. Eleito para o parlamento em 2008, ele é o líder liberal desde 2013.
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| As sete províncias e três territórios canadenses |
Logo depois de eleito, Trudeau provocou um rebuliço imediato na política canadense. Para começar, formou o primeiro ministério com igualdade de gênero na história do país – com 15 mulheres e 15 homens, a maioria com menos de 50 anos, incluindo três políticos Sikhs e dois membros do parlamento de origem indígena. Desde que foi eleito, o primeiro-ministro é presença garantida em qualquer grande manifestação LGBT – em julho ele foi o primeiro chefe de governo canadense a desfilar na Pride Parade de Toronto, a maior parada gay do país, empunhando uma bandeira combinando a tradicional folha de Maple (maior símbolo canadense) e a Rainbow Flag, ícone da diversidade.
Trudeau prometeu receber 25 mil refugiados sírios e destinar 250 milhões de dólares canadenses à integração dos recém-chegados. A boa receptividade dos canadenses à imigração é antiga, a recém-nomeada ministra das Instituições Democráticas no atual governo liberal, Maryam Monsef, por exemplo, já foi uma refugiada, quando fugiu do Afeganistão para o Canadá, aos 11 anos de idade.
Se não bastasse, o primeiro-ministro ainda promete legalizar a maconha, posição que dificilmente poderia ser deixada mais clara, anunciada até mesmo no site oficial do Partido Liberal canadense (
www.liberal.ca/realchange/marijuana): “Nós vamos legalizar, regular e restringir o acesso à marijuana”. O Canadá, aliás, foi o primeiro país do mundo a tornar legal o uso medicinal do produto, em 2001. A relação deles com bebidas alcoólicas é bem menos liberal, no entanto - mas isso é assunto para depois.
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| O primeiro castor avistado no Rio Tâmisa |
As coisas vão bem, mas os canadenses também têm seus problemas. Há uma bolha imobiliária feroz em gestação na economia, com economistas prevendo consequências funestas no futuro. O preço médio dos imóveis dobrou entre 2000 e 2015, um aumento que supera em 40% o avanço da renda média da população, algo no mínimo esquisito em um país em que o que não falta é espaço.
Aparentemente, não vai faltar assunto... Minha base de exploração será London (Ontario), uma cidade de 500 mil habitantes que fica cerca de 150 quilômetros a sudoeste de Toronto, na área mais austral do Canadá. Como o grande vizinho encrenqueiro fica logo ali, é claro que assuntos – e explorações – ao sul da fronteira também terão presença garantida aqui, daí o título do blog.
Já se passou quase um mês e até aqui o saldo parece francamente positivo. Uma bicicleta adquirida, clima quente e encontros fortuitos com a natureza local, incluindo centenas de gansos, dezenas de esquilos - e um castor.
Faço minhas as palavras de uma propaganda frequente da Air Canada por aqui: “The world needs more Canada. Let’s bring it to them!”
Veja aqui a propaganda em questão:
www.youtube.com/watch?v=ZVq_UZj1PI0