sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Ontario e a revolução cervejeira

Lunatic Fridge e Dead Elephant, marcas de pequenos à venda em loja do LCBO
É quase meio dia de domingo quando entro na loja de bebidas no bairro de Yorkville, na região norte de Toronto. Apesar do parque de diversões etílico à minha volta, o que me atraía até ali era a fome – não havia nada mais perto e eu queria ver se encontrava pelo menos um pacote de batata frita para enganar o estômago até o almoço, algumas horas à frente. Do lado de dentro da LCBO Store, logo depois da linha de caixas, uma moça com expressão entediada se apoiava no pequeno estande de degustação de uma marca de vinho espanhol, cercada por vasilhas cheias do que naquele momento me pareceram pedaços extremamente apetitosos de queijo e pão.
Eu me aproximo e depois do “bom dia” ela me pergunta se eu prefiro branco ou tinto. Aponto meu preferido e antes que ela consiga terminar de servir a pequena taça já engoli dois pedações de queijo com pão. Enquanto a moça listava os sabores que eu deveria perceber no vinho (“black currants, vanilla, berries...”) aproveitei para me servir de mais pão e queijo. Caprichei na pose de gourmand e tasquei elogios à estrutura, maciez, ao final prolongado e aos taninos do tinto espanhol, enquanto improvisava mais um mini sanduíche com os petiscos. Agradeci e ameacei me retirar.
“I’m sorry, sir, but you can not leave this area” (Me desculpe, mas o senhor não pode sair dessa área), escuto ela dizer, apontando para as minhas mãos.
Sorrio envergonhado, desconfiando que talvez eu tivesse ultrapassado tanto o limite da gula que ela ia me cobrar um extra pelos aperitivos. Mas não era isso. A moça apontava para o cálice de plástico, ainda cheio até a metade de vinho: “You’ll have to finish it here, sir” (O senhor vai ter que terminar isso aqui).
Surpreso e aliviado ao mesmo tempo, corro o olhar ao meu redor. A loja está quase vazia, com exceção de um casal jovem, indeciso sobre a marca de cider para acompanhar o almoço de domingo. Comento com a moça que as regras canadenses sobre o consumo de bebida me pareciam um pouco exageradas. Afinal, ao nosso redor havia corredores e mais corredores de todo tipo de produto alcoólico imaginável – e nenhuma criança ou menor de idade à vista para ser influenciado pela minha inocente taça de vinho.
“Well, sir, you know… If it’s not like that young people will always abuse themselves.” (Bom, senhor, você sabe… Se não for assim os jovens vão sempre abusar.)”
Mais ou menos rígidas, as decisões regulatórias sobre venda e consumo de álcool no Canadá são estaduais (provinciais, para ser mais exato). Nas províncias de Alberta, Manitoba e Quebec, por exemplo, a idade mínima para beber é a mesma do Brasil (18 anos), mas nas demais é preciso ter completado 19. A forma como a bebida é comercializada também tem variações regionais. Ontario, a província mais rica e populosa do país (concentra cerca de 40% da população e uma fatia equivalente do PIB) colocou em prática um novo modelo no início do ano, com a expectativa de ampliar em 30% o número de pontos de venda por aqui. O efeito, veremos, é semelhante ao de adicionar açúcar à fermentação - e acelerar a revolução cervejeira já em curso por aqui.
Em Ontario não se vende bebida alcoólica em mercados, supermercados, lojas de conveniência ou postos de gasolina, como no Brasil. Desde 1927 (quando a província encerrou sua experiência com a Lei Seca), regular a comercialização do álcool no varejo é atribuição do poderoso LCBO (Liquor Control Board of Ontario). Além dos bares e restaurantes, se você quiser consumir uma lata de cerveja por aqui há apenas três opções: visitar uma das lojas do LCBO (todas estatais), ir a uma TBS (The Beer Store, de que vamos tratar logo mais) ou encontrar uma loja das próprias cervejarias (são poucas, com exceção dos grandes fabricantes a lei permite apenas um ponto de venda por cada planta instalada em Ontario).

Lucro líquido


Fachada de uma das lojas do LCBO, na zona sul de London 
Se vale a pena para o governo se intrometer na venda de bebida? Bom, em toda a província de Ontario existem 650 lojas do LCBO. No ano fiscal 2015-16 (que no Canadá vai do começo de abril até o final de março do ano seguinte) essas lojas faturaram 5,6 bilhões de dólares canadenses (cerca de R$ 13,8 bilhões) – a receita foi 7% maior que nos 12 meses anteriores, o 22º ano seguido de crescimento. Nesse período, pela primeira vez na história uma única loja do LCBO superou os 50 milhões de dólares canadenses em vendas anuais (51,5 milhões de dólares canadenses para ser preciso, algo na faixa dos R$ 127 milhões), feito alcançado por uma unidade de Toronto à beira do Lago Ontario,
Desse faturamento, nada menos do que 1,9 bilhão de dólares canadenses (R$ 4,7 bilhões) vai direto para os cofres de Ontario na forma de um dividendo anual, dinheiro que a província aplica em saúde, educação e infraestrutura. Pequeno detalhe: isso ainda não inclui os impostos cobrados sobre as bebidas que são destinados às provinciais, que no caso da cerveja em Ontario equivale a mais ou menos 30% do valor de face do produto.
Por que então mexer em um sistema que rende tanta receita à província? Porque o governo de Ontario entende que é preciso dar mais espaço para as pequenas cervejarias. As mudanças começaram em janeiro, mas para compreender como se chegou ao modelo semi-estatal de venda de bebida alcoólica no varejo que agora está sendo reformado é preciso dar uma passada rápida pela história.

Receita médica para beber


A produção comercial de bebidas alcoólicas no Canadá é tão antiga quanto a chegada dos colonizadores europeus, mas ganhou embalo extra nos anos 60 do século retrasado, quando a Guerra Civil Americana praticamente interrompeu a produção de whisky nos Estados Unidos e abriu espaço para o similar canadense expandir-se internacionalmente – dizem que até a Rainha Victoria tomava uma dose toda noite, alegando que o produto tinha “efeitos medicinais”.
As primeiras medidas restritivas ao consumo do álcool surgiram durante a Primeira Guerra Mundial, em 1914, sob a justificativa de que limitar a venda reduziria o desperdício e a distração, aumentando a eficiência das operações industriais dedicadas ao esforço de guerra britânico. Em 1916, foi aprovado o Ontario Temperance Act, que proibia totalmente a venda de qualquer bebida alcoólica na província – a produção e transporte desses produtos ainda permaneceram permitidos até 1918, quando essas atividades também foram restringidas.
Daí em diante a única alternativa para tomar um drink em Ontario era dirigir-se a uma farmácia ou consultório, munido de uma receita médica. Parece que era uma doença bastante comum e que se alastrava rápido, porque só em 1920 os doutores emitiram 650 mil receitas para esse fim.
Uma das maiores unidades do LCBO em Toronto
Encerrada a Primeira Guerra, logo em 1919 uma tentativa de estender a proibição de consumir bebidas alcoólicas a todo o Canadá fracassou. Nesse mesmo ano um referendo foi realizado em Ontario para decidir se comprar álcool deveria seguir proibido na província - uma maioria folgada de 400 mil votos deu a vitória ao lado abstêmio. Dois outros referendos semelhantes foram realizados para esse mesmo fim (em 1921 e 1923), com mais dois triunfos dos anti-bebida. Em 1927, um candidato a governador colocou o fim da proibição como um dos pontos chave da sua campanha - e foi eleito. Howard Ferguson cumpriu a promessa e criou o LCBO, o órgão através do qual até hoje o poder público gerencia diretamente a distribuição de bebidas alcoólicas, além de influenciar na regulação.
No começo eram apenas 16 lojas e outros três escritórios que recebiam pedidos pelo correio, além de quatro centros de distribuição. Para ter direito a comprar bebida os habitantes de Ontario precisavam ter um Liquor Permit, uma licença que custava anualmente 2 dólares canadenses. No final do primeiro ano, o LCBO já administrava uma rede de 86 lojas.
Essa foi uma era dourada para a indústria do turismo de Ontario. Nos Estados Unidos a proibição continuava vigente desde os anos 1920, ao mesmo tempo oferecendo condições ideais para o fortalecimento dos primeiros sindicatos modernos do crime organizado e estimulando americanos dos estados vizinhos de Nova York e Michigan a cruzar a fronteira para passar as férias legalmente inebriados junto aos vizinhos do norte. Mas o movimento durou pouco, porque em 1934 os americanos perceberam o equívoco e encerraram seu experimento com a Lei Seca.
Nas décadas que se seguiram, pouca coisa mudou em Ontario em relação à comercialização de álcool no varejo, pelo menos até esse ano. Em janeiro a província resolveu tomar uma decisão ousada, autorizando gradualmente a venda de cerveja nas chamadas grocery stores (mercados e estabelecimentos afins), um dos pontos-chave de um detalhado plano que ficou conhecido como New Beer Framework. Para chegar a essa decisão, no entanto, foram meses de planejamento.

Energia e bebida em pé de igualdade


Loja da The Beer Store, localizada na área central de London
Tudo começou em novembro de 2014, quando o Advisory Council on Government Assets, uma espécie de conselho da província formado por especialistas em negócios e políticas públicas, apresentou um relatório inicial intitulado “Retain and Gain: Making Ontario’s Assets Work Better for Taxpayers and Consumers” (algo como “Manter e Ganhar: Fazendo os Ativos de Ontario Trabalharem Melhor pelos Contribuintes e Consumidores”). Liderado por um presidente aposentado de um dos maiores bancos canadenses (Ed Clark, do TD Bank), esse conselho tem a função de monitorar continuamente o patrimônio público de Ontario, sempre à procura de estratégias para otimizar o retorno que esses ativos podem oferecer à população – o que eles consideram “retorno”, como vamos ver, não se limita apenas à arrecadação de impostos.
O tal relatório propunha mudanças para dois setores da economia vistos por eles como muito importantes, colocados em pé de igualdade: o setor elétrico e a distribuição de bebidas alcoólicas. Depois de examinar as recomendações, o governo da província autorizou o Conselho a partir para a Fase 2. Reconhecendo a complexidade do assunto, os especialistas decidiram se aprofundar em uma das pernas sobre a qual a venda de bebidas alcoólicas no varejo está assentada por aqui: as TBS (The Beer Stores).
Esse é o nome fantasia de um negócio que surgiu como uma cooperativa, autorizado a funcionar pelo governo provincial no mesmo ano de criação do LCBO, 1927. Com o tempo, seu controle acabou consolidado nas mãos das três maiores cervejarias canadenses: Molson Coors, Labatt e Sleeman.

Câmara fria e um computador


Existem 450 lojas da TBS em Ontario e a experiência de visitar uma delas é esquisita – na verdade são quase depósitos, que além de distribuir cerveja para bares e restaurantes também vendem ao público. Você se depara basicamente com um operador de caixa diante de um computador, à frente de uma câmara fria, e uma ou duas geladeiras daquelas que costumam ser usadas para armazenar frios no Brasil, em que algumas marcas de cerveja ficam à vista. A maior parte do que eles têm à venda, porém, fica escondido do consumidor, dentro da câmara fria. Algumas unidades contam com terminais informatizados em que o cliente pode pesquisar o estoque para escolher o que vai comprar, mas isso não permite manusear os produtos para ler os rótulos, por exemplo.
Interior de uma loja atual da TBS em London: um computador, a operadora e a câmara fria
O Conselho reconheceu que o sistema da TBS é “eficiente e relativamente de baixo custo”, mas alertou que a “experiência de consumo precisa ser melhorada”. Há um problema mais grave, porém. Por ser controlado pelas três maiores cervejarias, os conselheiros observaram que o negócio têm potencial para ser “inerentemente parcial” – é difícil imaginar que esses gigantes não se sintam ao menos tentados a privilegiar as próprias marcas em detrimento das dos concorrentes.
Há mais um detalhe: o controle das três grandes cervejarias não está mais em mãos canadenses. A que chega mais perto disso é a Molson Coors – depois da fusão com a norte-americana Coors, em 2005, a companhia resultante manteve ações negociadas nas bolsas de Nova York e Toronto, além de sedes regionais separadas, em Denver (Colorado) e Montreal (Quebec), mas oficialmente a nova empresa está incorporada nos Estados Unidos.
A Labatt foi fundada em 1847 por um imigrante irlandês, em London (Ontario), mas os belgas da Interbrew a compraram em 1995, por US$ 4 bilhões (em torno de R$ 13 bilhões). Em 2004, a Interbrew se fundiu com a Ambev através de uma troca de ações, o que criou a AB Inbev. Hoje a mesma gigante que domina o mercado brasileiro de cerveja controla a maior cervejaria de Ontario.
A Sleeman foi criada em 1834, por um empresário que batizou o negócio com o próprio sobrenome. A companhia teve sua licença para vender cerveja revogada pelo governo canadense em 1933, por contrabandear bebida ilegalmente para Detroit durante os anos da Lei Seca nos Estados Unidos. Em 1988, o negócio foi ressuscitado por um tataraneto homônimo do fundador, com produtos baseados nas mesmas receitas originais. Em 2006, a cervejaria foi comprada pelos japoneses da Sapporo, por 400 milhões de dólares canadenses (cerca de R$ 1 bilhão).

Mais espaço para os pequenos


Considerando tudo isso, a proposta apresentada pelo Conselho ao governo foi devolver à TBS o caráter cooperativo da década de 20, abrindo a possibilidade de comprar uma participação no negócio a qualquer fabricante de cerveja baseado em Ontario, desde que tenha capacidade mínima de produzir 1 milhão de litros por ano e produção efetiva de 250 mil litros anuais. Ficou definido que as cervejarias menores poderão comprar ações a um preço fixo, negociado pelo governo com as três controladoras - a ideia é que ao longo do tempo essa participação seja proporcional ao volume de cerveja vendido pelos novos acionistas nas lojas da TBS.
A maior fábrica da Labatt no Canadá, que fica em London 
Embora as três grandes continuem a ser controladoras e responsáveis pela gestão, os novos sócios terão direito de participar através de uma nova estrutura de governança, com a criação de um Board que dará voz aos pequenos através de quatro membros independentes, escolhidos inicialmente com participação do governo da província. Daí em diante, novos conselheiros independentes serão escolhidos pelo voto majoritário dos próprios independentes já presentes e a província terá o direito de pedir o afastamento de qualquer um deles.
Esses independentes terão papel-chave na governança. Políticas decisivas relacionadas a princípios de preço e marketing exigirão a aprovação por maioria dos conselheiros independentes. Qualquer transação entre a TBS e seus controladores também exigirá a aprovação por maioria dos independentes e precisará ser aberta a auditoria. Por fim, todos os comitês formados no Conselho terão de incluir pelo menos um conselheiro independente.
Os quatro independentes elegerão entre si um conselheiro que terá o voto de minerva no caso de empate em alguma decisão e ainda escolherão um ombudsman, que se reportará diretamente ao Board, exclusivamente para ouvir reclamações das cervejarias e dos consumidores.
Mas além da governança, na prática o novo modelo cooperativo da TBS vai aumentar a exposição das marcas das pequenas cervejarias. Hoje as The Beer Stores delimitam o espaço que as cervejarias ocupam nas prateleiras, o envolvimento delas em ações promocionais e de marketing com base na participação de mercado que as marcas têm na província de Ontario. Apesar de razoavelmente justo, o Conselho entendeu que essa prática tende a manter estável a presença de mercado das marcas já existentes e limitar a capacidade de crescimento dos novos participantes. Trocando em miúdos, para os pequenos é pequena a possibilidade de aparecer nas gôndolas, mesmo que eles estejam crescendo a uma taxa acima da média.

No mínimo 20% das prateleiras


O Conselho descobriu que atualmente as pequenas cervejarias ocupam cerca de 7% do espaço em prateleira e têm participação semelhante nas ações de marketing da TBS. Agora, sob o New Beer Framework, essa taxa obrigatoriamente terá de ser no mínimo de 20%.
As razões para tomar essa decisão passam longe de simples caridade. O mercado das craft beers (que no Brasil equivale ao que chamamos de “cervejas artesanais”) cresce com vontade no Canadá. Números do Beer Canada, um órgão criado pela indústria para compilar dados sobre o assunto, atestam a revolução cervejeira em andamento: em 2015 o país contava 640 cervejarias licenciadas, mais do que o dobro do que existia cinco anos antes.
A carga tributária sobre o produto no Canadá é elevada - 50%, comparado a 40% nos EUA e 21% na Alemanha, mas ainda menos do que pagamos no Brasil, 56%. Mas não há muitos motivos para reclamação. O setor emprega diretamente quase 12 mil pessoas e a cada dólar canadense gasto com cerveja registra-se um impacto de 1,12 dólar canadense no PIB. Não é à toa: quase 85% da cerveja consumida no Canadá é produzida localmente.
Modelo de uma loja reformada da TBS, com os espaço garantido para as pequenas cervejarias
Em resumo, o que o Conselho de Ontario percebeu é que o setor gera renda e emprego, concluindo que os novos participantes do mercado (as cervejarias pequenas) merecem ser protegidas - não só porque apresentam as maiores taxas de crescimento, mas porque oferecem maior potencial de criação de postos de trabalho na província. Para ampliar o acesso delas ao mercado, o New Beer Framework propôs transformar a TBS em um negócio auto sustentável, administrado com base no equilíbrio entre custos e o fluxo de caixa. Em outras palavras, as taxas cobradas das cervejarias para vender e distribuir os produtos terão que refletir integralmente o custo de gerenciar o sistema, dentro do modelo cooperativo.
Como as cervejarias menores são menos capazes de sustentar os custos de levar suas marcas ao mercado, para elas as taxas cobradas pela TBS serão mais baixas, seguindo um padrão equitativo e progressivo, mais ou menos como funciona a cobrança de imposto de renda da pessoa física – quem ganha mais, paga proporcionalmente mais. Em resumo, os pequenos terão seus custos de venda e distribuição reduzidos em 10%, enquanto as cervejarias médias perceberão uma queda de 5%.
Mas para permitir que a exposição das cervejarias menores de fato se materialize e a experiência de compra do consumidor melhore, o Conselho notou que era essencial modernizar as lojas da TBS, para que deixassem de ser os quase depósitos atuais e se transformassem em pontos de venda de varejo adequados. Para isso, a The Beer Store teve de se comprometer com um plano de investimento de 100 milhões de dólares canadenses (cerca de R$ 250 milhões) para os próximos quatro anos, a serem gastos na reforma das unidades existentes. As lojas reestilizadas funcionarão em um sistema self-service, em que o comprador poderá ver – e manusear - as latas e garrafas de cerveja diretamente nas prateleiras e geladeiras.

Grocery stores


Para os novos pontos de venda autorizados em Ontario – as grocery stores, isto é, os mercados, supermercados e afins -, também valem as mesmas regras de garantia de 20% do espaço nas prateleiras para as cervejarias pequenas. O plano é emitir ao todo 450 licenças, em um processo gradual. Até setembro, havia na província 60 lojas licenciadas, com mais dez previstas até o final do outono, atingindo 150 unidades com cerveja à venda até maio do ano que vem.
Obter a licença, porém, não é tão fácil assim. Primeiro é preciso obedecer a uma série de regras, da limitação de horário de venda de cerveja (permitida só de segunda a sábado, das 9h às 23h, e nos domingos das 11h às 18h) ao treinamento rigoroso dos funcionários (para checar a idade do consumidor e até saber identificar se o comprador está alcoolizado, situação em que a lei não permite a venda). Há ainda um limite no volume de vendas fixado em 1 milhão de dólares canadenses (R$ 2,5 milhões) mensais por loja.
Os mercados só poderão vender a bebida em embalagens com até seis unidades. Os pacotes com 12, 24 ou mais latas e garrafas estão vetados, assim como é proibido oferecer desconto por volume adquirido (por múltiplos six-packs, por exemplo). Para conseguir a licença também é preciso pagar: entre 3.000 e 7.000 dólares canadenses (R$ 7.500 e R$ 17,5 mil) por ano, dependendo do porte do comércio.

Toboggan ladeira acima


Rick Doyle, com um dos growlers da Toboggan em mãos
E como os fabricantes de cervejas artesanais enxergam as mudanças? Fui atrás de um canadense de meia idade que fez carreira na indústria cervejeira para buscar a resposta. Rick Doyle trabalhou durante 13 anos em uma das três gigantes (a Molson), onde ocupou diversos cargos da área de vendas. Na segunda metade dos anos 90 ele assumiu uma vice-presidência na Molstar Sports & Entertainment (o braço da cervejaria ligado aos esportes), e durante quatro anos foi o responsável por negociar os contratos da Molson com os eventos de Fórmula Indy no Canadá, para as corridas que na época se realizavam nos circuitos de Toronto e Vancouver.
Doyle entrou no mundo das craft beers em 2008, quando foi contratado pela Big Rock Brewery, uma pequena cervejaria criada por outro canadense de meia-idade. Insatisfeito com a qualidade da cerveja que encontrava disponível em Calgary (Alberta) nos anos 80, Ed McNally resolveu começar a fabricar a própria bebida. Doyle chegou para ajudar a profissionalizar o negócio, desenvolvendo planos anuais de venda e orçamentos para os três principais mercados da cervejaria - as províncias da Costa Leste canadense, Manitoba e Ontario, onde até então a Big Rock perdia dinheiro.
Doyle conseguiu reverter o prejuízo de Ontario (2,2 milhões de dólares canadenses em 2008), deixando uma geração de caixa anual de 500 mil dólares canadenses ao sair, em 2013. Ele gostou tanto do que viu no mercado etílico da província que dois anos depois encontrou um sócio e resolveu abrir a própria cervejaria, a Toboggan.
O negócio abriu as portas em maio de 2015, pensado como um brewpub – em resumo, um pub que além de servir comida fabrica a própria cerveja. As instalações na região central de London, porém, foram planejadas pensando mais à frente, de olho no mercado de varejo, em especial na abertura que o LCBO oferece aos pequenos produtores.
Atualmente a Toboggan fabrica dez tipos de cerveja e três variedades de cider (uma bebida alcoólica fermentada da maçã). Desde o início o brewpub vendia o que produzia no próprio local - inicialmente em growlers, os garrafões com nome chique que os cervejeiros tanto gostam. A partir de junho deste ano, porém, Doyle começou a comercializar uma das suas cervejas nas lojas do LCBO - a Lunatic Fridge, que aparece na primeira foto desse post. A India Pale Ale está disponível ao consumidor em latas de 473 mililitros, decoradas com a psicodélica “Geladeira Lunática” que dá nome à bebida.
Fachada da Toboggan, na Richmond Street, no centro de London
Doyle diz estar “bastante satisfeito” com a experiência varejista. Não é para menos, passados quase seis meses a “Geladeira Lunática” já chega a boa parte da região sudoeste de Ontario, ocupando as prateleiras de 28 lojas do LCBO. Nesse período a distribuição varejista ajudou a puxar um aumento de 60% na produção da Toboggan, que está em 160 mil litros anuais. O varejo hoje responde por 20% das vendas do brewpub, mas a tendência é que essa fatia aumente em breve.
Pergunto como ele enxerga as mudanças propostas pelo New Beer Framework. Os olhos de Doyle brilham quando ele fala das grocery stores. “Isso vai causar um impacto dramático no mercado e a razão é simples: conveniência,” explica. “Em outras palavras, comprar cerveja no mercado significa uma viagem a menos para o consumidor e isso vai fazer com que ele compre mais.”
O proprietário da Toboggan não mostra o mesmo entusiasmo em relação à reforma das The Beer Stores, ainda que os custos diminuam e haja mais espaço garantido para os cervejeiros menores. “Mesmo que as lojas se tornem mais atrativas, não acredito que a TBS vai ter capacidade ou até estrutura física para lidar com tantos fornecedores”, diz.
Doyle conta que as cervejas da Toboggan ainda não estão disponíveis em nenhuma grocery store, mas já há negociações em curso.

Quebec e Alberta


Antes de tomar a decisão de reformar o sistema de venda e distribuição de cerveja no varejo em Ontario, os conselheiros se dispuseram a fazer uma análise detalhada de outros modelos existentes no Canadá. A conclusão a que eles chegaram é que havia pontos positivos e negativos no formato vigente na província desde 1927 – e que colocar tudo abaixo trazia mais riscos do que possíveis benefícios.
Um dos exemplos estudado por eles foi o posto em prática em Alberta, a gigantesca província das pradarias do centro-oeste canadense. Lá o governo começou a privatizar completamente a distribuição de bebida em 1993. Atualmente, liquor stores podem comercializar qualquer tipo de bebida - mas devem vender exclusivamente álcool e não podem se estabelecer dentro de shopping centers ou outros centros comerciais. Existem cerca de 1.300 delas, sem a definição de um limite no número de licenças emitidas.
Um dos resultados do modelo é que em Alberta os preços da cerveja são os mais altos do país, cerca de 40 dólares canadenses (R$ 100) por uma caixa com 24 latas. Desse total, em torno de 10 dólares canadenses (R$ 25) são revertidos em imposto diretamente para a província. Na avaliação do Conselho, a combinação de taxas relativamente elevadas, ausência de limitação no número de lojas e exigência de serem exclusivas para bebidas alcoólicas são as razão dos preços altos.
Modelo de como deve ser a estrutura nas grocery stores autorizadas a vender cerveja em Ontario 
Outro modelo analisado pelos conselheiros foi o adotado na British Columbia, a província do noroeste onde está Vancouver. Por lá existe um sistema de distribuição parcialmente privatizado, com 400 lojas estatais e 670 privadas. O BCLDB (British Columbia Liquor Distribution Board, equivalente ao LCBO de Ontario) é responsável por fornecer os produtos para as lojas privadas, a um preço mais baixo do que o oferecido ao consumidor.
Como em Alberta, o grande número de lojas e a exigência de exclusividade para o álcool elevou os preços ao consumidor. Na British Columbia uma caixa com 24 latas de cerveja custa os mesmos 40 dólares canadenses (R$ 100), mas a arrecadação de impostos para a província é maior: 12 dólares canadenses (R$ 30).
Por fim, os conselheiros se voltaram para o modelo do Quebec. O modelo em vigência na província que fala francês no leste do Canadá é o mais liberal de todos. Cerveja pode ser encontrada em cerca de 8.000 pontos de venda, incluindo mercados e lojas de conveniência. Os preços são definidos por esses revendedores, com base na demanda e concorrência.
Como resultado, o que os moradores de Quebec pagam por uma caixa de 24 latas é semelhante ao que se vê em Ontario, em torno de 35 dólares canadenses (R$ 87,50), mas o volume de recursos arrecadados em impostos é proporcionalmente bem menor – 8 dólares canadenses (R$ 20), comparado aos 11 dólares canadenses de Ontario (R$ 27,50).
Por fim, a opção do Conselho ao formular o New Beer Framework foi perseguir o equilíbrio: manter a arrecadação de impostos, ampliar o espaço no mercado e reduzir custos para as pequenas cervejarias, aumentar o número de postos de distribuição e melhorar a experiência de compra do consumidor de cerveja e combater o conflito de interesses no segundo maior distribuidor de bebida no varejo da província (a TBS). Tudo isso só através de planejamento e esforço regulatório.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A incrível Guerra de 1812

A placa indica o caminho para a volta no tempo no sul de Ontario
“A aquisição do Canadá nesse ano, até as proximidades de Quebec, será só uma questão de marchar”
Thomas Jefferson, ex-presidente dos Estados Unidos, em 1812

A pequena placa de madeira é a única indicação de que estamos no caminho certo, logo depois do desvio à direita na Clark Road, uma estrada bastante movimentada na região metropolitana de London (Ontario). 1812, o ano pintado em vermelho no fundo branco, é a senha para o recuo de 200 anos ao passado, quase um delírio coletivo a que se propõe um grupo de abnegados reunidos durante o último fim de semana de agosto na Fanshawe Reservoir.
Com quase 12 quilômetros quadrados, a área de conservação ambiental surgiu nos anos 50, quando uma série de barragens foram construídas para controlar o fluxo do Rio Tâmisa e poupar a cidade do transtorno das enchentes sazonais que atingiam esse extremo sul do Canadá. Junto com o parque, as autoridades decidiram estabelecer uma pequena vila, réplica da vida dos pioneiros canadenses nos meados do século XIX. Ali, ao redor da Fanshawe Pioneer Village, cerca de 300 pessoas se reúnem anualmente para reviver – a palavra em inglês é reenact, cujo melhor similar que consigo encontrar em português é reencenar – o ambiente e algumas passagens do conflito que envolveu dois vizinhos cuja convivência desde então têm sido a melhor possível.
Sim, Canadá e Estados Unidos já pegaram em armas de lados opostos, em uma guerra que para os padrões modernos (e até da época) foi relativamente leve em baixas (em torno de 20 mil mortos, 15 mil do lado americano e 4.500 entre os canadenses), mas que teve uma série de consequências marcantes. A maior delas talvez tenha sido a preservação da independência canadense, que do contrário hoje poderia fazer parte de um território norte-americano ainda mais gigantesco. Mas não é só isso.
Uma das casinhas ao estilo do século XIX, na Fanshawe Pioneer Village
Durante o conflito os Estados Unidos tiveram sua capital ocupada – e incendiada – pela primeira e última vez na história, em agosto de 1814. Enquanto o presidente Madison e seu gabinete abandonavam Washington, os britânicos atearam fogo aos prédios públicos (incluindo o Capitólio e a Casa Branca), em resposta ao que tropas ianques tinham feito pouco mais de um ano antes, quando saquearam e queimaram propriedades governamentais em York (atual Toronto).
Para os índios, que em bom número decidiram se aliar e combater do lado canadense, na tentativa de defender o que restava de suas terras no Meio-Oeste americano, a guerra trouxe quase só decepção. Até as poucas tribos que preferiram se manter neutras ou optaram pelos Estados Unidos seriam varridas para oeste do Rio Mississippi nas décadas seguintes. De positivo para as chamadas First Nations talvez só mesmo a consolidação de um mito na figura de Tecumseh, o líder shawnee que até hoje simboliza a unidade e fraternidade intertribal. A história desse chefe que sonhava formar uma confederação capaz de unir os índios da Flórida ao Canadá é tão fascinante que merece (e terá) mais espaço no blog...

***
                                                                             
Acampamento dos oficiais indígenas britânicos
De volta à Fanshawe Pioneer Village, depois de pagar 7 dólares canadenses (cerca de R$ 17) pelo ingresso, recebemos um mapa e a indicação do caminho a seguir.
A sensação ao caminhar pelas ruas de terra da vila é o mais próximo que já cheguei a uma volta no tempo. São pouco mais de 11h da manhã e ainda não há muitos visitantes por ali, uma vez que a ação programada para a área identificada no mapa como Battlefield (Campo de Batalha) estava marcada só para as 15h.
A representação na maioria dos 21 edifícios do complexo pioneiro não se limita só à arquitetura e objetos de época nas oficinas do ferreiro ou carpinteiro, por exemplo. Quase todas as casinhas têm seus próprios habitantes, vestidos na melhor tradição da fronteira norte-americana do século XIX, incluindo os responsáveis pelo jornal primitivo (o London Free Press), a taverna, uma igreja (Trinity Church), a cervejaria (London Brewery) e até uma loja maçônica completa.
Perto do limite leste do vilarejo nos deparamos com o primeiro acampamento, não mais do que quatro ou cinco tendas de tecido branco instaladas à sombra das árvores e identificadas por uma placa de madeira em que se lia British Indian Department, entre a Union Jack e um tomahawk (uma espécie de machadinha indígena). Ao lado dela, uma figura com trajes que pareciam uma mistura de índio e pioneiro do velho oeste puxa conversa, perguntando se sabemos o que ele estava fazendo ali.
Empunhando um mosquete e com os olhos brilhando ao fundo dos óculos de aros redondos um tanto tortos, Marc se apresenta e resume seu papel no tal Departamento Indígena Britânico, o órgão do Reino Unido responsável pelas relações com os súditos tribais do Império – criado em 1755, funcionou por quase duzentos anos, até 1965.
Marc, o agente do departamento indígena do Império Britânico
Marc explica que entre as funções desses oficiais britânicos estava abastecer os índios de armas, munição e mantimentos, com o objetivo de cevar uma aliança forte o bastante para conservar as tribos como aliadas militares, mas suficientemente discreta para não despertar a atenção (e irritação) das autoridades americanas ao lado sul da fronteira, sob o risco de envolver as indefesas colônias da América do Norte em uma guerra contra vizinhos cada vez mais poderosos e sedentos por terras.
“Você quer ter ideia do que eles sentiam durante o combate e do que a gente vai passar logo mais?”, ele pergunta, abrindo a bolsa de couro que leva pendurada no pescoço e pescando lá de dentro um entre tantos papelotes feitos com jornal.
“Aqui”, continuou, rasgando a ponta do envelope improvisado com os dentes e derramando o conteúdo de grãos negros na palma da mão. “Ponha só um pouco na boca”.
Sigo as instruções do agente indígena reencarnado, só para dar uma cusparada no chão logo depois, tentando me livrar do gosto horrível enquanto os grãos de pólvora terminam de se dissolver na minha língua, deixando o interior da boca adormecido.
“Agora você já vai conseguir entender por que a gente fica bebendo água o tempo todo no campo de batalha”, ele ri, apresentando o mosquete. “A cada vez que recarregamos, um pouco de pólvora sempre escapa para dentro da boca.”
Marc não é bem o que eu poderia esperar de alguém envolvido nesse tipo de atividade, presumivelmente um bando de patriotas que enxergam a história em preto e branco, recheada de mocinhos e bandidos. “Essa guerra não teve nada a ver com lealdade à Coroa, era tudo a respeito de terras e peles”, ele diz, tirando os óculos para limpar o suor que escorria pelo rosto. “Eu mesmo estou nessa só por causa do dinheiro”, continua, com uma piscada cúmplice, explicando depois as múltiplas oportunidades que os agentes do Indian Department encontravam para enriquecer ilicitamente, fosse através de negócios paralelos com os índios ou até desviando os mantimentos que o Império enviava para cativar os peles vermelhas para depósitos particulares.
Luc (de costas), trajado com o uniforme dos Royal Scots 
Na fantasia pode até ser, mas na vida real nenhum desses aficionados por história leva dinheiro algum para estar ali, como um canadense aparentando trinta e tantos anos me explicaria um pouco mais tarde, de dentro de um garboso – e tórrido para os mais de 30 graus do começo da tarde – uniforme completo do 1st Regiment of Foot. Mais conhecido pelo apelido de Royal Scots, esse é o mais antigo regimento do Exército Britânico, em ação desde 1633.
Com o chapéu adornado por uma plumagem verde escura nas mãos, Luc me conta que todos os envolvidos no reenactment são voluntários, alguns apenas interessados no tema, outros com profissões diretamente ligadas ao ensino de história.
“É um hobby, mas às vezes dá para ganhar algum dinheiro, quando nos chamam para alguma filmagem”, diz ele, explicando que é muito mais fácil para um diretor de cinema lidar com gente que já conhece o assunto e sabe até recarregar um mosquete do século XIX do que ter de ensinar tudo do zero para um bando de figurantes.
No caso de Luc, o que o atraiu aos Royal Scots de faz de conta foi o legado militar da própria família, algo com que ele gosta de manter contato – um tio-avô e o avô lutaram de verdade ao lado dos britânicos em solo europeu, na Segunda Guerra Mundial.
Depois de fornecer algumas dicas preciosas a respeito de lugares para visitar no extremo norte de Ontario e se surpreender ao saber que o Brasil já tinha sido uma monarquia – cortesia de uma vertente da mesma guerra que derivou no conflito encenado por ele todo ano, aliás -, o Red Coat de mentirinha conta que só descobriu que os brasileiros não falavam espanhol durante as Olimpíadas. Ele se despede, dizendo que “sentia muito, mas tinha que ir para a guerra”. Enquanto trocamos um aperto de mãos, penso que talvez os Jogos do Rio de Janeiro tenham deixado algum legado, afinal.

                                                                                    ***


O acampamento dos Red Coats, com a Union Jack tremulando ao fundo
Já são quase 14h, então decido dar um pulo até o acampamento militar, para ver como estão instalados os soldados de faz de conta que se enfrentariam logo mais. Um pouco além do limite leste da vila, várias fileiras de barracas brancas brilham no sol forte do começo da tarde, ocupando o centro de um descampado coberto de grama. Esses são os aposentos dos combatentes, mas em volta das tendas menores há outras maiores, ocupadas por pessoas também caracterizadas à imagem de colonos de 200 anos atrás, a entourage que acompanhava qualquer exército daquela época, incluindo mulheres e crianças.
Enquanto eu observava o acampamento, fui abordado por um senhor barrigudo, com felpudas suíças brancas, que tinha cruzado a clareira na minha direção. “E então, está pronto para se alistar?”, ele perguntou, bem sério.
“Talvez”, respondi sorrindo, e antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa ele já tinha me entregado um folheto colorido com tudo o que eu precisava saber para ingressar nas forças armadas do passado. Entre os “requerimentos para o recruta”, além de um interesse em “compartilhar e preservar a história canadense”, “amor pela vida ao ar livre” e “senso de humor”, o folder informava que “você tem que amar fumaça: fumaça da pólvora negra com seu aroma unicamente pungente. Fumaça do fogo de acampamento que cozinha nossas refeições e nos aquece nas noites frias, ao redor do que nos congregamos para conversar e desfrutar da companhia uns dos outros.”
Sem me dar tempo para qualquer aparte, o barrigudo continuou, dizendo que se eu quisesse seria bem vindo para participar de um evento como observador. “Nós viajamos para vários locais históricos, em Ontario e pelo nordeste dos Estados Unidos”, ele contou, passando o braço pelo meu ombro. “Alguns de nós já foram até para a Europa!”
Eu já não sabia mais o que fazer para escapar do alistamento, quando a esposa do gorducho veio puxá-lo pelo braço, arrastando-o de volta para uma das barracas laterais. “Você vai encontrar tudo aí nesse endereço na internet”, ainda escutei ele dizer.

***

Barracas dos acompanhantes dos Red Coats
A verdade é que os britânicos dispostos a defender o Canadá em 1812 precisariam mostrar disposição tão grande quanto a do meu alistador de reenactment, porque o cenário pré-guerra se mostrava francamente favorável aos Estados Unidos. Para começar, a população americana era 12 vezes maior do que a que vivia mais ao norte – havia 77 mil canadenses, contra 677 mil ianques só nas áreas adjacentes à fronteira, nos estados de Kentucky e Ohio, e nos então territórios de Illinois, Indiana e Michigan. Para piorar, uma parte dos colonos canadenses eram imigrantes americanos recentes, cuja lealdade à Coroa era no mínimo duvidosa.
Quando se fala em Canadá naquela época é preciso ter mente que se tratava de um território consideravelmente menor que o atual – as possessões britânicas incluíam apenas as duas províncias continentais (Upper e Lower Canada), além das outras quatro localizadas na Costa Atlântica (Nova Scotia, New Brunswick, Prince Edward Island e Cape Breton). O Upper Canada equivale a toda a região sul da atual Província de Ontario, a área encravada entre os lagos Huron, Ontario e Earie. Já o Lower Canada é basicamente a atual Província de Quebec.
O Upper Canada era de longe a região mais vulnerável das colônias britânicas na América do Norte. Responsável pela defesa dessa fronteira extensa, o general Isaac Brook contava com meros 1.600 soldados profissionais, além de 11 mil civis obrigados a servir temporariamente na chamada milícia, mal armados e com treinamento insuficiente. Para tornar tudo mais difícil, a região tinha uma economia primitiva e dependia de suprimentos essenciais que precisavam vir de Quebec, o centro administrativo de toda a colônia no período, quase 2.000 quilômetros distante do posto britânico mais avançado a oeste, na boca do Lago Huron.
Nos meses em que o clima permitia, esses suprimentos desciam o Rio St. Lawrence, cruzavam os lagos em balsas e depois ainda precisavam ser arrastados por terra, em trilhas precárias. Entre janeiro e março, porém, os colonos do oeste precisavam viver com o que tinham, até que a navegação fosse reaberta, normalmente em abril.
Províncias de Upper e Lower Canada, cenário da Guerra de 1812
A única vantagem palpável do lado britânico era a superioridade naval que a Royal Navy tinha assegurada, em especial nos lagos Ontario e Earie. Nos dois extremos dessa última porção de água, porém, havia dois pontos extremamente frágeis. A leste, só o Rio Niágara separava quase 40 quilômetros de fronteira, oferecendo múltiplas possibilidades de invasão. A oeste a situação era semelhante, o Rio Detroit era a única barreira natural separando a cidade americana de mesmo nome das terras canadenses, onde tudo que havia para proteção era uma dilapidada estrutura militar com menos de 300 Red Coats em serviço, o Fort Malden.
Para completar, os britânicos estavam em guerra na Europa, um encarniçado conflito contra os franceses que já se arrastava há dez anos. Assim, as possibilidades de enviar reforços para defender uma remota colônia na América do Norte quando a própria sede do Império estava ameaçada eram, para dizer o mínimo, escassas.
A grande razão de desentendimento entre americanos e britânicos, aliás, era uma questão naval advinda da guerra dos britânicos contra Napoleão. A França e o Reino Unido tentavam há anos se asfixiar economicamente, apreendendo navios até de países neutros que se dirigissem para os portos europeus, continentais ou insulares.
Depois da vitória sobre a marinha francesa comandada pelo almirante Nelson em Trafalgar, em 1805, a Royal Navy passou a velejar quase soberana nos mares, aproveitando para apertar o cerco comercial, o que incluía as embarcações americanas. Mesmo mantendo-se neutros no conflito europeu, os Estados Unidos se viam impedidos de fazer negócios com toda a Europa continental. Além disso, os britânicos se davam o direito de abordar qualquer navio ianque em busca de contrabando ou desertores da própria marinha, o que gerava um atrito constante com os americanos.
O auge da crise se deu na primavera de 1807, quando o britânico H.M.S. Leopard disparou contra o U.S.S. Chesapeake, depois que o capitão da embarcação americana se recusou a obedecer ordens para revista, matando três e ferindo outros 18 marinheiros. Depois disso os britânicos completaram a abordagem e ainda levaram quatro marujos detidos, alegadamente desertores.
O 8-Pounder britânico, canhão capaz de disparar projéteis de quase 4 quilos
Durante anos esse caso alimentou tensões na opinião pública dos Estados Unidos, considerada uma mancha na honra do país que exigia retribuição. Em junho de 1812, o momento finalmente pareceu propício aos olhos dos americanos e o Congresso aprovou uma declaração de guerra aos britânicos, justificada pela detenção de marinheiros estadunidenses, violação dos direitos de neutralidade e águas territoriais, além da acusação de que o bloqueio aos portos da Europa continental era apenas pretexto para prejudicar o comércio americano.
A certeza da vitória contra um adversário tão frágil era tamanha nos Estados Unidos que em uma carta a um jornal da Philadelphia, menos de dois meses depois da declaração de guerra, o ex-presidente Thomas Jefferson afirmou que “a aquisição do Canadá nesse ano, até as proximidades de Quebec, será uma mera questão de marchar, e nos dará a experiência para o ataque a Halifax em seguida, com a expulsão final da Inglaterra do continente americano.”
Os britânicos tinham plena consciência da própria vulnerabilidade e colocaram em prática uma estratégia conservadora. Eles sabiam que o ponto nevrálgico para o controle do Canadá, em última instância, era manter o poder sobre Quebec e as rotas de navegação, no Rio St. Lawrence e nos lagos, sem o que não haveria como abastecer qualquer força mais a oeste. Definida a prioridade, o restante do território seria defendido conforme as possibilidades permitissem.
Essa também era a avaliação do Duque de Wellington. Consultado em uma correspondência sobre a situação na América pelo secretário de estado para as Colônias, Lord Bathurst, o histórico comandante militar britânico, que em pouco tempo se tornaria a nêmesis de Napoleão em Waterloo, respondeu:
“Acredito que a defesa do Canadá e a cooperação com os índios dependem da navegação dos lagos. Qualquer operação ofensiva a partir do Canadá deve ser precedida pelo estabelecimento de uma superioridade naval nos lagos.
Mas mesmo que tenhamos essa superioridade, eu devo duvidar que sejamos capazes de fazer mais do que assegurar os pontos nesses lagos a que os americanos têm acesso. Em territórios como a América, muito extensos, fragilmente povoados e produzindo proporcionalmente pouco comida para sua extensão, operações militares executadas por grandes formações são impraticáveis, a não ser que a parte que as coloca em andamento tenha garantido o uso ininterrupto de um rio navegável, ou acesso a significativos meios de transporte terrestres, o que países como esse raramente podem fornecer.”
Forças americanas se posicionando no campo de batalha da Fanshawe Pioneer Village
Como previsto, a guerra de fato começou em um dos dois pontos mais frágeis no Lago Erie. No dia 12 de julho de 1812, sob o comando do governador do Território de Michigan, William Hull, as forças americanas cruzaram o Rio Detroit e tomaram sem resistência a cidade de Sandwich, do lado canadense. Os Red Coats e a milícia simplesmente recuaram, para o Fort Malden.
Eram dias em que tudo deve ter parecido perdido para os britânicos. No cenário europeu, apenas três semanas antes, Napoleão tinha cruzado o Rio Niemen acompanhado de meio milhão de homens, colocando o Grand Armée em marcha para a invasão da Rússia. Mas no remoto front oeste canadense, porém, as forças britânicas reagiram de forma inesperada.
Fortalecido por 400 índios, o comandante britânico do Fort St. Joseph rendeu o Fort Michilimackinac, do lado americano. Mais ao sul, Hull relutava em avançar, temendo ter sua linha de suprimentos cortada pelos índios que lutavam em aliança com os Red Coats. Depois de algumas escaramuças no entorno do Rio Aux Canard, o comandante americano decide retornar para Detroit, do seu lado da fronteira. Sem hesitar, Isack Brock, o governador do Upper Canada, avançou, cercou e bombardeou Detroit, com o apoio de cerca de 600 índios liderados por Tecumseh. Em 16 de agosto, com medo do que os indígenas poderiam fazer se tomassem a cidade à força, Hull se rende e entrega Detroit.
A guerra na América do Norte ainda se arrastaria por dois anos e o que de fato mudaria seu curso seriam de novo os acontecimentos na Europa. A essa altura, o Grand Armeé recuava como podia depois do fracasso em solo russo, acossado pelos exércitos da Rússia, Áustria e Prússia. No final de março de 1814, depois de um dia de combates nos arredores de Paris, os franceses se rendem e os aliados entram na capital, forçando Napoleão a abdicar no começo de abril, despachando-o para o seu primeiro exílio, na Ilha de Elba.
A notícia ainda demoraria alguns dias a chegar ao sul da França, onde o Exército Peninsular de Wellington perseguia o que restava das forças francesas, após ajudar a expulsar os invasores da Espanha, depois de anos de combate. Agora, com a guerra na Europa aparentemente encerrada, os britânicos poderiam se concentrar no conflito menor que envolvia as possessões norte-americanas. Seriam justamente os veteranos de Wellington que cruzariam o Atlântico no final de julho, fazendo uma parada nas Bermudas antes de seguir em direção à costa americana, para subir o Rio Patuxent e finalmente marchar sobre Washington, no dia 24 de agosto.
Em novembro, Estados Unidos e o Reino Unido começaram a negociar a paz em solo belga, com os termos finais fixados pelo Tratado de Ghent, em dezembro de 1814. Durante as negociações os britânicos tentaram propor a criação de um estado-tampão para seus aliados indígenas, a oeste do Lago Earie, como haviam prometido, mas os ianques recusaram a possibilidade sem nem considerar. Do lado americano, os objetivos de ver respeitados direitos de navegação e pôr fim à abordagem dos seus navios pela Royal Navy também não passaram de aspirações. Em resumo, o que ficou acertado é que cada parte devolveria os territórios conquistados durante o conflito, com as fronteiras voltando ao que eram antes de tudo começar. Não é para menos que o acordo ficou conhecido com “Tratado do Status Quo”.

***

Royal Scots montam o piquete improvisado
Já são 15h10 e o volume de visitantes aumentou sensivelmente desde a manhã, a maioria deles ocupando a área demarcada por um barbante vermelho ao norte do acampamento dos Red Coats, denominado no mapa de Campo de Batalha. Percebendo a impaciência do público que checava seguidamente os relógios ou celulares, um dos organizadores avisa pelo microfone que “a guerra teria que esperar um pouco mais”. Havia um casamento de verdade sendo celebrado na igrejinha da vila e eles não queriam atrapalhar a cerimônia com ruídos de tiros e explosões – a batalha, portanto, tinha sido reagendada para as 15h30.
Pontualmente no novo horário, um grupo de dez homens envergando o uniforme vermelho dos Royal Scots ingressa no campo, em marcha acelerada. Enquanto o oficial ordena que eles montem uma espécie de barricada com os troncos amontoados junto à cerca lateral, o homem do microfone faz uma introdução do que foi a Guerra de 1812.
Os Red Coats já terminavam o serviço quando o narrador não resistiu à piada óbvia, para resumir as consequências do conflito: “Se os britânicos tivessem perdido, provavelmente hoje nós também estaríamos debatendo sobre Donald Trump.”
Atrás de mim, escuto uma voz feminina resmungar, em tom irritado: “Até parece... Aqui não teria debate nenhum!”
Um estrondo interrompe a divagação histórica. Do outro lado do campo, um grupo de 20 ou 25 homens em uniformes diversos disparava na direção dos Royal Scots, concentrados ao redor de um pequeno canhão azul claro.
Os britânicos retribuem fogo, enquanto uma peça de artilharia um pouco maior que a dos americanos é trazida para a extremidade esquerda do campo de batalha. “Esse é um 8-Pounder”, explica o narrador. “Isso significa que ele é capaz de lançar projéteis de oito pounds (3,6 quilos). Do lado americano a arma que vocês estão vendo é um 6-Pounder.”
Prontos para o combate, Red Coats aguardam as ações dos americanos (ao fundo)
O estrondo da boca de fogo britânica é bem mais forte e espalha fumaça em direção aos espectadores. Aproveitando a cobertura de fumo, três homens vestidos de verde e cinza chegam para reforçar o piquete britânico - entre eles reconheço Marc, o agente do British Indian Department.
A troca de tiros de mosquete e de canhão entre os dois lados continua, e quando os americanos ameaçam avançar, Marc resolveu mostrar que estava disposto a representar com rigor o papel ambíguo a que se propunha. Ele simplesmente virou as costas e saiu correndo em direção à retaguarda, abandonando o campo de batalha. Um dos Royal Scots ainda disparou na sua direção, mas o agente indígena conseguiu desertar com sucesso. Ele bem que tinha avisado que estava “nessa só por causa do dinheiro”...
A essa altura já consigo contar três baixas do lado britânico, com os feridos (ou mortos) estendidos na grama. A coisa está ficando feia e os Read Coats tentam entabular alguma forma de negociação com os americanos, pelo menos para que os dois lados pudessem atender os feridos. As delegações dos inimigos se encontram no meio do campo, mas parece não ter havido acordo e o combate recomeça, com os homens abatidos deixados onde estavam.
Uma nova companhia de soldados ingressa no cercado para reforçar o piquete canadense, mas o dia já estava perdido para os britânicos. Depois de mais algumas baixas, um novo encontro de oficiais decreta o fim da batalha e os casacos vermelhos se retiram, derrotados. Entre eles vejo Marc, que atendia um dos companheiros caído.
Os reforços chegam, mas já era tarde demais para salvar o dia para os casacos vermelhos
O narrador usa o poder do microfone para curar os feridos e ressuscitar os mortos, pedindo um minuto de silêncio em homenagem aos que morreram há 200 anos na guerra de verdade, não muito longe dali. Depois de uma salva de palmas, os inimigos deixam o campo de batalha, abraçados.
Hoje os canadenses perderam, mas no dia seguinte eles retomariam o combate, para garantir que nem no reenacting houvesse risco de eles se tornarem americanos.

No link a seguir há um vídeo curto dos reenactors em ação na Fanshawe Pioneer Village:
https://youtu.be/CtPXEH3B4Gc

Para quem quiser saber um pouco mais sobre reenacting, o link abaixo tem informações da Upper Canada Military Re-enactment Society, que estava no folheto que o recrutador me entregou:
www.royalscotsgrenadiers.com

terça-feira, 23 de agosto de 2016

É o Canadá!

Rainha Elisabeth II, até hoje na nota de 20 dólares
Lá vamos nós de novo. Mais um ano fora do país, dessa vez no Canadá, um lugar que para a maioria dos brasileiros remete a uma combinação de clichês que inclui frio polar, ursos enormes, hockey no gelo e uma área territorial descomunal em relação à população. Mas será só isso? Suspeito seriamente que não. O objetivo desse blog é justamente tentar descobrir – e revelar - um pouco mais da realidade desse semi continente que ocupa a metade superior da América do Norte.
Quase todo clichê tem um fundo de verdade. O Canadá é mesmo gigantesco, o segundo maior país do globo terrestre em área (quase 10 milhões de quilômetros quadrados), com nada menos do que seis fusos horários diferentes. Se ocupa quase 7% da área terrestre, a população soma meras 36 milhões de almas, menos do que o Estado de São Paulo. A densidade demográfica, obviamente, é baixa: 4 habitantes por km2. Para efeito de comparação, a do Brasil é de 24 pessoas/km2.
Apesar de todo esse tamanho, administrativamente o Canadá se divide em apenas dez províncias e três territórios, que juntos formam a 14ª maior economia mundial e detêm o nono melhor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do planeta. É um país novo, cuja unidade embrionária foi lançada só em 1867, quando o temor de uma anexação pelos Estados Unidos ajudou a forjar uma confederação.
Wortley Village, nosso novo bairro em London (Ontario)
Ex-colônia francesa e britânica, o Canadá tem duas línguas oficiais (inglês e francês, falado majoritariamente só na província de Quebec) e até 1982 ainda dependia da ratificação do parlamento britânico a qualquer lei de maior importância. Até hoje se trata de uma monarquia constitucional, com a Rainha Elisabeth II (do Reino Unido) ocupando a posição de chefe de Estado e o destaque na nota de 20 dólares canadenses.
A proximidade com os britânicos historicamente arrastou os canadenses a todos os conflitos em que o Império se meteu ao longo dos séculos XIX e XX, da Guerra dos Bôeres na África do Sul à Primeira Guerra Mundial, quando 625 mil soldados cruzaram o Oceano para lutar na Europa (e 60 mil deles não voltaram). Na Segunda Guerra Mundial o Canadá forneceu mais 1,1 milhão de homens à rainha, responsáveis, entre outras batalhas, pela tomada da praia de Juno, uma das cinco frentes de desembarque na Normandia durante o Dia D.
Os gansos de London (Ontario)
Na história recente, o Canadá tem se destacado por uma ofensiva liberal sem precedentes, sob a liderança de um jovem primeiro ministro, Justin Trudeau. Hoje com 44 anos, ele se tornou a segunda pessoa mais nova a ocupar o cargo, depois de liderar seu partido em uma triunfal volta ao poder, em outubro de 2015. Foi uma vitória folgada, em que os liberais conquistaram 184 das 338 cadeiras do parlamento, garantindo uma maioria sólida depois de dez anos consecutivos de governos conservadores.
Nascido na capital Ottawa (Ontario) e filho de um ex-primeiro ministro que comandou o Canadá por 16 anos (Pierre Trudeau, entre 1968 e 1984), Justin Trudeau tem uma formação no mínimo curiosa: trabalhou como advogado, professor de teatro e de francês, antes de entrar para a política, em 2000. Eleito para o parlamento em 2008, ele é o líder liberal desde 2013.
As sete províncias e três territórios canadenses
Logo depois de eleito, Trudeau provocou um rebuliço imediato na política canadense. Para começar, formou o primeiro ministério com igualdade de gênero na história do país – com 15 mulheres e 15 homens, a maioria com menos de 50 anos, incluindo três políticos Sikhs e dois membros do parlamento de origem indígena. Desde que foi eleito, o primeiro-ministro é presença garantida em qualquer grande manifestação LGBT – em julho ele foi o primeiro chefe de governo canadense a desfilar na Pride Parade de Toronto, a maior parada gay do país, empunhando uma bandeira combinando a tradicional folha de Maple (maior símbolo canadense) e a Rainbow Flag, ícone da diversidade.
Trudeau prometeu receber 25 mil refugiados sírios e destinar 250 milhões de dólares canadenses à integração dos recém-chegados. A boa receptividade dos canadenses à imigração é antiga, a recém-nomeada ministra das Instituições Democráticas no atual governo liberal, Maryam Monsef, por exemplo, já foi uma refugiada, quando fugiu do Afeganistão para o Canadá, aos 11 anos de idade.
Se não bastasse, o primeiro-ministro ainda promete legalizar a maconha, posição que dificilmente poderia ser deixada mais clara, anunciada até mesmo no site oficial do Partido Liberal canadense (www.liberal.ca/realchange/marijuana): “Nós vamos legalizar, regular e restringir o acesso à marijuana”. O Canadá, aliás, foi o primeiro país do mundo a tornar legal o uso medicinal do produto, em 2001. A relação deles com bebidas alcoólicas é bem menos liberal, no entanto - mas isso é assunto para depois.
O primeiro castor avistado no Rio Tâmisa
As coisas vão bem, mas os canadenses também têm seus problemas. Há uma bolha imobiliária feroz em gestação na economia, com economistas prevendo consequências funestas no futuro. O preço médio dos imóveis dobrou entre 2000 e 2015, um aumento que supera em 40% o avanço da renda média da população, algo no mínimo esquisito em um país em que o que não falta é espaço.
Aparentemente, não vai faltar assunto... Minha base de exploração será London (Ontario), uma cidade de 500 mil habitantes que fica cerca de 150 quilômetros a sudoeste de Toronto, na área mais austral do Canadá. Como o grande vizinho encrenqueiro fica logo ali, é claro que assuntos – e explorações – ao sul da fronteira também terão presença garantida aqui, daí o título do blog.
Já se passou quase um mês e até aqui o saldo parece francamente positivo. Uma bicicleta adquirida, clima quente e encontros fortuitos com a natureza local, incluindo centenas de gansos, dezenas de esquilos - e um castor.
Faço minhas as palavras de uma propaganda frequente da Air Canada por aqui: “The world needs more Canada. Let’s bring it to them!”
Veja aqui a propaganda em questão: www.youtube.com/watch?v=ZVq_UZj1PI0