quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A incrível Guerra de 1812

A placa indica o caminho para a volta no tempo no sul de Ontario
“A aquisição do Canadá nesse ano, até as proximidades de Quebec, será só uma questão de marchar”
Thomas Jefferson, ex-presidente dos Estados Unidos, em 1812

A pequena placa de madeira é a única indicação de que estamos no caminho certo, logo depois do desvio à direita na Clark Road, uma estrada bastante movimentada na região metropolitana de London (Ontario). 1812, o ano pintado em vermelho no fundo branco, é a senha para o recuo de 200 anos ao passado, quase um delírio coletivo a que se propõe um grupo de abnegados reunidos durante o último fim de semana de agosto na Fanshawe Reservoir.
Com quase 12 quilômetros quadrados, a área de conservação ambiental surgiu nos anos 50, quando uma série de barragens foram construídas para controlar o fluxo do Rio Tâmisa e poupar a cidade do transtorno das enchentes sazonais que atingiam esse extremo sul do Canadá. Junto com o parque, as autoridades decidiram estabelecer uma pequena vila, réplica da vida dos pioneiros canadenses nos meados do século XIX. Ali, ao redor da Fanshawe Pioneer Village, cerca de 300 pessoas se reúnem anualmente para reviver – a palavra em inglês é reenact, cujo melhor similar que consigo encontrar em português é reencenar – o ambiente e algumas passagens do conflito que envolveu dois vizinhos cuja convivência desde então têm sido a melhor possível.
Sim, Canadá e Estados Unidos já pegaram em armas de lados opostos, em uma guerra que para os padrões modernos (e até da época) foi relativamente leve em baixas (em torno de 20 mil mortos, 15 mil do lado americano e 4.500 entre os canadenses), mas que teve uma série de consequências marcantes. A maior delas talvez tenha sido a preservação da independência canadense, que do contrário hoje poderia fazer parte de um território norte-americano ainda mais gigantesco. Mas não é só isso.
Uma das casinhas ao estilo do século XIX, na Fanshawe Pioneer Village
Durante o conflito os Estados Unidos tiveram sua capital ocupada – e incendiada – pela primeira e última vez na história, em agosto de 1814. Enquanto o presidente Madison e seu gabinete abandonavam Washington, os britânicos atearam fogo aos prédios públicos (incluindo o Capitólio e a Casa Branca), em resposta ao que tropas ianques tinham feito pouco mais de um ano antes, quando saquearam e queimaram propriedades governamentais em York (atual Toronto).
Para os índios, que em bom número decidiram se aliar e combater do lado canadense, na tentativa de defender o que restava de suas terras no Meio-Oeste americano, a guerra trouxe quase só decepção. Até as poucas tribos que preferiram se manter neutras ou optaram pelos Estados Unidos seriam varridas para oeste do Rio Mississippi nas décadas seguintes. De positivo para as chamadas First Nations talvez só mesmo a consolidação de um mito na figura de Tecumseh, o líder shawnee que até hoje simboliza a unidade e fraternidade intertribal. A história desse chefe que sonhava formar uma confederação capaz de unir os índios da Flórida ao Canadá é tão fascinante que merece (e terá) mais espaço no blog...

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Acampamento dos oficiais indígenas britânicos
De volta à Fanshawe Pioneer Village, depois de pagar 7 dólares canadenses (cerca de R$ 17) pelo ingresso, recebemos um mapa e a indicação do caminho a seguir.
A sensação ao caminhar pelas ruas de terra da vila é o mais próximo que já cheguei a uma volta no tempo. São pouco mais de 11h da manhã e ainda não há muitos visitantes por ali, uma vez que a ação programada para a área identificada no mapa como Battlefield (Campo de Batalha) estava marcada só para as 15h.
A representação na maioria dos 21 edifícios do complexo pioneiro não se limita só à arquitetura e objetos de época nas oficinas do ferreiro ou carpinteiro, por exemplo. Quase todas as casinhas têm seus próprios habitantes, vestidos na melhor tradição da fronteira norte-americana do século XIX, incluindo os responsáveis pelo jornal primitivo (o London Free Press), a taverna, uma igreja (Trinity Church), a cervejaria (London Brewery) e até uma loja maçônica completa.
Perto do limite leste do vilarejo nos deparamos com o primeiro acampamento, não mais do que quatro ou cinco tendas de tecido branco instaladas à sombra das árvores e identificadas por uma placa de madeira em que se lia British Indian Department, entre a Union Jack e um tomahawk (uma espécie de machadinha indígena). Ao lado dela, uma figura com trajes que pareciam uma mistura de índio e pioneiro do velho oeste puxa conversa, perguntando se sabemos o que ele estava fazendo ali.
Empunhando um mosquete e com os olhos brilhando ao fundo dos óculos de aros redondos um tanto tortos, Marc se apresenta e resume seu papel no tal Departamento Indígena Britânico, o órgão do Reino Unido responsável pelas relações com os súditos tribais do Império – criado em 1755, funcionou por quase duzentos anos, até 1965.
Marc, o agente do departamento indígena do Império Britânico
Marc explica que entre as funções desses oficiais britânicos estava abastecer os índios de armas, munição e mantimentos, com o objetivo de cevar uma aliança forte o bastante para conservar as tribos como aliadas militares, mas suficientemente discreta para não despertar a atenção (e irritação) das autoridades americanas ao lado sul da fronteira, sob o risco de envolver as indefesas colônias da América do Norte em uma guerra contra vizinhos cada vez mais poderosos e sedentos por terras.
“Você quer ter ideia do que eles sentiam durante o combate e do que a gente vai passar logo mais?”, ele pergunta, abrindo a bolsa de couro que leva pendurada no pescoço e pescando lá de dentro um entre tantos papelotes feitos com jornal.
“Aqui”, continuou, rasgando a ponta do envelope improvisado com os dentes e derramando o conteúdo de grãos negros na palma da mão. “Ponha só um pouco na boca”.
Sigo as instruções do agente indígena reencarnado, só para dar uma cusparada no chão logo depois, tentando me livrar do gosto horrível enquanto os grãos de pólvora terminam de se dissolver na minha língua, deixando o interior da boca adormecido.
“Agora você já vai conseguir entender por que a gente fica bebendo água o tempo todo no campo de batalha”, ele ri, apresentando o mosquete. “A cada vez que recarregamos, um pouco de pólvora sempre escapa para dentro da boca.”
Marc não é bem o que eu poderia esperar de alguém envolvido nesse tipo de atividade, presumivelmente um bando de patriotas que enxergam a história em preto e branco, recheada de mocinhos e bandidos. “Essa guerra não teve nada a ver com lealdade à Coroa, era tudo a respeito de terras e peles”, ele diz, tirando os óculos para limpar o suor que escorria pelo rosto. “Eu mesmo estou nessa só por causa do dinheiro”, continua, com uma piscada cúmplice, explicando depois as múltiplas oportunidades que os agentes do Indian Department encontravam para enriquecer ilicitamente, fosse através de negócios paralelos com os índios ou até desviando os mantimentos que o Império enviava para cativar os peles vermelhas para depósitos particulares.
Luc (de costas), trajado com o uniforme dos Royal Scots 
Na fantasia pode até ser, mas na vida real nenhum desses aficionados por história leva dinheiro algum para estar ali, como um canadense aparentando trinta e tantos anos me explicaria um pouco mais tarde, de dentro de um garboso – e tórrido para os mais de 30 graus do começo da tarde – uniforme completo do 1st Regiment of Foot. Mais conhecido pelo apelido de Royal Scots, esse é o mais antigo regimento do Exército Britânico, em ação desde 1633.
Com o chapéu adornado por uma plumagem verde escura nas mãos, Luc me conta que todos os envolvidos no reenactment são voluntários, alguns apenas interessados no tema, outros com profissões diretamente ligadas ao ensino de história.
“É um hobby, mas às vezes dá para ganhar algum dinheiro, quando nos chamam para alguma filmagem”, diz ele, explicando que é muito mais fácil para um diretor de cinema lidar com gente que já conhece o assunto e sabe até recarregar um mosquete do século XIX do que ter de ensinar tudo do zero para um bando de figurantes.
No caso de Luc, o que o atraiu aos Royal Scots de faz de conta foi o legado militar da própria família, algo com que ele gosta de manter contato – um tio-avô e o avô lutaram de verdade ao lado dos britânicos em solo europeu, na Segunda Guerra Mundial.
Depois de fornecer algumas dicas preciosas a respeito de lugares para visitar no extremo norte de Ontario e se surpreender ao saber que o Brasil já tinha sido uma monarquia – cortesia de uma vertente da mesma guerra que derivou no conflito encenado por ele todo ano, aliás -, o Red Coat de mentirinha conta que só descobriu que os brasileiros não falavam espanhol durante as Olimpíadas. Ele se despede, dizendo que “sentia muito, mas tinha que ir para a guerra”. Enquanto trocamos um aperto de mãos, penso que talvez os Jogos do Rio de Janeiro tenham deixado algum legado, afinal.

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O acampamento dos Red Coats, com a Union Jack tremulando ao fundo
Já são quase 14h, então decido dar um pulo até o acampamento militar, para ver como estão instalados os soldados de faz de conta que se enfrentariam logo mais. Um pouco além do limite leste da vila, várias fileiras de barracas brancas brilham no sol forte do começo da tarde, ocupando o centro de um descampado coberto de grama. Esses são os aposentos dos combatentes, mas em volta das tendas menores há outras maiores, ocupadas por pessoas também caracterizadas à imagem de colonos de 200 anos atrás, a entourage que acompanhava qualquer exército daquela época, incluindo mulheres e crianças.
Enquanto eu observava o acampamento, fui abordado por um senhor barrigudo, com felpudas suíças brancas, que tinha cruzado a clareira na minha direção. “E então, está pronto para se alistar?”, ele perguntou, bem sério.
“Talvez”, respondi sorrindo, e antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa ele já tinha me entregado um folheto colorido com tudo o que eu precisava saber para ingressar nas forças armadas do passado. Entre os “requerimentos para o recruta”, além de um interesse em “compartilhar e preservar a história canadense”, “amor pela vida ao ar livre” e “senso de humor”, o folder informava que “você tem que amar fumaça: fumaça da pólvora negra com seu aroma unicamente pungente. Fumaça do fogo de acampamento que cozinha nossas refeições e nos aquece nas noites frias, ao redor do que nos congregamos para conversar e desfrutar da companhia uns dos outros.”
Sem me dar tempo para qualquer aparte, o barrigudo continuou, dizendo que se eu quisesse seria bem vindo para participar de um evento como observador. “Nós viajamos para vários locais históricos, em Ontario e pelo nordeste dos Estados Unidos”, ele contou, passando o braço pelo meu ombro. “Alguns de nós já foram até para a Europa!”
Eu já não sabia mais o que fazer para escapar do alistamento, quando a esposa do gorducho veio puxá-lo pelo braço, arrastando-o de volta para uma das barracas laterais. “Você vai encontrar tudo aí nesse endereço na internet”, ainda escutei ele dizer.

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Barracas dos acompanhantes dos Red Coats
A verdade é que os britânicos dispostos a defender o Canadá em 1812 precisariam mostrar disposição tão grande quanto a do meu alistador de reenactment, porque o cenário pré-guerra se mostrava francamente favorável aos Estados Unidos. Para começar, a população americana era 12 vezes maior do que a que vivia mais ao norte – havia 77 mil canadenses, contra 677 mil ianques só nas áreas adjacentes à fronteira, nos estados de Kentucky e Ohio, e nos então territórios de Illinois, Indiana e Michigan. Para piorar, uma parte dos colonos canadenses eram imigrantes americanos recentes, cuja lealdade à Coroa era no mínimo duvidosa.
Quando se fala em Canadá naquela época é preciso ter mente que se tratava de um território consideravelmente menor que o atual – as possessões britânicas incluíam apenas as duas províncias continentais (Upper e Lower Canada), além das outras quatro localizadas na Costa Atlântica (Nova Scotia, New Brunswick, Prince Edward Island e Cape Breton). O Upper Canada equivale a toda a região sul da atual Província de Ontario, a área encravada entre os lagos Huron, Ontario e Earie. Já o Lower Canada é basicamente a atual Província de Quebec.
O Upper Canada era de longe a região mais vulnerável das colônias britânicas na América do Norte. Responsável pela defesa dessa fronteira extensa, o general Isaac Brook contava com meros 1.600 soldados profissionais, além de 11 mil civis obrigados a servir temporariamente na chamada milícia, mal armados e com treinamento insuficiente. Para tornar tudo mais difícil, a região tinha uma economia primitiva e dependia de suprimentos essenciais que precisavam vir de Quebec, o centro administrativo de toda a colônia no período, quase 2.000 quilômetros distante do posto britânico mais avançado a oeste, na boca do Lago Huron.
Nos meses em que o clima permitia, esses suprimentos desciam o Rio St. Lawrence, cruzavam os lagos em balsas e depois ainda precisavam ser arrastados por terra, em trilhas precárias. Entre janeiro e março, porém, os colonos do oeste precisavam viver com o que tinham, até que a navegação fosse reaberta, normalmente em abril.
Províncias de Upper e Lower Canada, cenário da Guerra de 1812
A única vantagem palpável do lado britânico era a superioridade naval que a Royal Navy tinha assegurada, em especial nos lagos Ontario e Earie. Nos dois extremos dessa última porção de água, porém, havia dois pontos extremamente frágeis. A leste, só o Rio Niágara separava quase 40 quilômetros de fronteira, oferecendo múltiplas possibilidades de invasão. A oeste a situação era semelhante, o Rio Detroit era a única barreira natural separando a cidade americana de mesmo nome das terras canadenses, onde tudo que havia para proteção era uma dilapidada estrutura militar com menos de 300 Red Coats em serviço, o Fort Malden.
Para completar, os britânicos estavam em guerra na Europa, um encarniçado conflito contra os franceses que já se arrastava há dez anos. Assim, as possibilidades de enviar reforços para defender uma remota colônia na América do Norte quando a própria sede do Império estava ameaçada eram, para dizer o mínimo, escassas.
A grande razão de desentendimento entre americanos e britânicos, aliás, era uma questão naval advinda da guerra dos britânicos contra Napoleão. A França e o Reino Unido tentavam há anos se asfixiar economicamente, apreendendo navios até de países neutros que se dirigissem para os portos europeus, continentais ou insulares.
Depois da vitória sobre a marinha francesa comandada pelo almirante Nelson em Trafalgar, em 1805, a Royal Navy passou a velejar quase soberana nos mares, aproveitando para apertar o cerco comercial, o que incluía as embarcações americanas. Mesmo mantendo-se neutros no conflito europeu, os Estados Unidos se viam impedidos de fazer negócios com toda a Europa continental. Além disso, os britânicos se davam o direito de abordar qualquer navio ianque em busca de contrabando ou desertores da própria marinha, o que gerava um atrito constante com os americanos.
O auge da crise se deu na primavera de 1807, quando o britânico H.M.S. Leopard disparou contra o U.S.S. Chesapeake, depois que o capitão da embarcação americana se recusou a obedecer ordens para revista, matando três e ferindo outros 18 marinheiros. Depois disso os britânicos completaram a abordagem e ainda levaram quatro marujos detidos, alegadamente desertores.
O 8-Pounder britânico, canhão capaz de disparar projéteis de quase 4 quilos
Durante anos esse caso alimentou tensões na opinião pública dos Estados Unidos, considerada uma mancha na honra do país que exigia retribuição. Em junho de 1812, o momento finalmente pareceu propício aos olhos dos americanos e o Congresso aprovou uma declaração de guerra aos britânicos, justificada pela detenção de marinheiros estadunidenses, violação dos direitos de neutralidade e águas territoriais, além da acusação de que o bloqueio aos portos da Europa continental era apenas pretexto para prejudicar o comércio americano.
A certeza da vitória contra um adversário tão frágil era tamanha nos Estados Unidos que em uma carta a um jornal da Philadelphia, menos de dois meses depois da declaração de guerra, o ex-presidente Thomas Jefferson afirmou que “a aquisição do Canadá nesse ano, até as proximidades de Quebec, será uma mera questão de marchar, e nos dará a experiência para o ataque a Halifax em seguida, com a expulsão final da Inglaterra do continente americano.”
Os britânicos tinham plena consciência da própria vulnerabilidade e colocaram em prática uma estratégia conservadora. Eles sabiam que o ponto nevrálgico para o controle do Canadá, em última instância, era manter o poder sobre Quebec e as rotas de navegação, no Rio St. Lawrence e nos lagos, sem o que não haveria como abastecer qualquer força mais a oeste. Definida a prioridade, o restante do território seria defendido conforme as possibilidades permitissem.
Essa também era a avaliação do Duque de Wellington. Consultado em uma correspondência sobre a situação na América pelo secretário de estado para as Colônias, Lord Bathurst, o histórico comandante militar britânico, que em pouco tempo se tornaria a nêmesis de Napoleão em Waterloo, respondeu:
“Acredito que a defesa do Canadá e a cooperação com os índios dependem da navegação dos lagos. Qualquer operação ofensiva a partir do Canadá deve ser precedida pelo estabelecimento de uma superioridade naval nos lagos.
Mas mesmo que tenhamos essa superioridade, eu devo duvidar que sejamos capazes de fazer mais do que assegurar os pontos nesses lagos a que os americanos têm acesso. Em territórios como a América, muito extensos, fragilmente povoados e produzindo proporcionalmente pouco comida para sua extensão, operações militares executadas por grandes formações são impraticáveis, a não ser que a parte que as coloca em andamento tenha garantido o uso ininterrupto de um rio navegável, ou acesso a significativos meios de transporte terrestres, o que países como esse raramente podem fornecer.”
Forças americanas se posicionando no campo de batalha da Fanshawe Pioneer Village
Como previsto, a guerra de fato começou em um dos dois pontos mais frágeis no Lago Erie. No dia 12 de julho de 1812, sob o comando do governador do Território de Michigan, William Hull, as forças americanas cruzaram o Rio Detroit e tomaram sem resistência a cidade de Sandwich, do lado canadense. Os Red Coats e a milícia simplesmente recuaram, para o Fort Malden.
Eram dias em que tudo deve ter parecido perdido para os britânicos. No cenário europeu, apenas três semanas antes, Napoleão tinha cruzado o Rio Niemen acompanhado de meio milhão de homens, colocando o Grand Armée em marcha para a invasão da Rússia. Mas no remoto front oeste canadense, porém, as forças britânicas reagiram de forma inesperada.
Fortalecido por 400 índios, o comandante britânico do Fort St. Joseph rendeu o Fort Michilimackinac, do lado americano. Mais ao sul, Hull relutava em avançar, temendo ter sua linha de suprimentos cortada pelos índios que lutavam em aliança com os Red Coats. Depois de algumas escaramuças no entorno do Rio Aux Canard, o comandante americano decide retornar para Detroit, do seu lado da fronteira. Sem hesitar, Isack Brock, o governador do Upper Canada, avançou, cercou e bombardeou Detroit, com o apoio de cerca de 600 índios liderados por Tecumseh. Em 16 de agosto, com medo do que os indígenas poderiam fazer se tomassem a cidade à força, Hull se rende e entrega Detroit.
A guerra na América do Norte ainda se arrastaria por dois anos e o que de fato mudaria seu curso seriam de novo os acontecimentos na Europa. A essa altura, o Grand Armeé recuava como podia depois do fracasso em solo russo, acossado pelos exércitos da Rússia, Áustria e Prússia. No final de março de 1814, depois de um dia de combates nos arredores de Paris, os franceses se rendem e os aliados entram na capital, forçando Napoleão a abdicar no começo de abril, despachando-o para o seu primeiro exílio, na Ilha de Elba.
A notícia ainda demoraria alguns dias a chegar ao sul da França, onde o Exército Peninsular de Wellington perseguia o que restava das forças francesas, após ajudar a expulsar os invasores da Espanha, depois de anos de combate. Agora, com a guerra na Europa aparentemente encerrada, os britânicos poderiam se concentrar no conflito menor que envolvia as possessões norte-americanas. Seriam justamente os veteranos de Wellington que cruzariam o Atlântico no final de julho, fazendo uma parada nas Bermudas antes de seguir em direção à costa americana, para subir o Rio Patuxent e finalmente marchar sobre Washington, no dia 24 de agosto.
Em novembro, Estados Unidos e o Reino Unido começaram a negociar a paz em solo belga, com os termos finais fixados pelo Tratado de Ghent, em dezembro de 1814. Durante as negociações os britânicos tentaram propor a criação de um estado-tampão para seus aliados indígenas, a oeste do Lago Earie, como haviam prometido, mas os ianques recusaram a possibilidade sem nem considerar. Do lado americano, os objetivos de ver respeitados direitos de navegação e pôr fim à abordagem dos seus navios pela Royal Navy também não passaram de aspirações. Em resumo, o que ficou acertado é que cada parte devolveria os territórios conquistados durante o conflito, com as fronteiras voltando ao que eram antes de tudo começar. Não é para menos que o acordo ficou conhecido com “Tratado do Status Quo”.

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Royal Scots montam o piquete improvisado
Já são 15h10 e o volume de visitantes aumentou sensivelmente desde a manhã, a maioria deles ocupando a área demarcada por um barbante vermelho ao norte do acampamento dos Red Coats, denominado no mapa de Campo de Batalha. Percebendo a impaciência do público que checava seguidamente os relógios ou celulares, um dos organizadores avisa pelo microfone que “a guerra teria que esperar um pouco mais”. Havia um casamento de verdade sendo celebrado na igrejinha da vila e eles não queriam atrapalhar a cerimônia com ruídos de tiros e explosões – a batalha, portanto, tinha sido reagendada para as 15h30.
Pontualmente no novo horário, um grupo de dez homens envergando o uniforme vermelho dos Royal Scots ingressa no campo, em marcha acelerada. Enquanto o oficial ordena que eles montem uma espécie de barricada com os troncos amontoados junto à cerca lateral, o homem do microfone faz uma introdução do que foi a Guerra de 1812.
Os Red Coats já terminavam o serviço quando o narrador não resistiu à piada óbvia, para resumir as consequências do conflito: “Se os britânicos tivessem perdido, provavelmente hoje nós também estaríamos debatendo sobre Donald Trump.”
Atrás de mim, escuto uma voz feminina resmungar, em tom irritado: “Até parece... Aqui não teria debate nenhum!”
Um estrondo interrompe a divagação histórica. Do outro lado do campo, um grupo de 20 ou 25 homens em uniformes diversos disparava na direção dos Royal Scots, concentrados ao redor de um pequeno canhão azul claro.
Os britânicos retribuem fogo, enquanto uma peça de artilharia um pouco maior que a dos americanos é trazida para a extremidade esquerda do campo de batalha. “Esse é um 8-Pounder”, explica o narrador. “Isso significa que ele é capaz de lançar projéteis de oito pounds (3,6 quilos). Do lado americano a arma que vocês estão vendo é um 6-Pounder.”
Prontos para o combate, Red Coats aguardam as ações dos americanos (ao fundo)
O estrondo da boca de fogo britânica é bem mais forte e espalha fumaça em direção aos espectadores. Aproveitando a cobertura de fumo, três homens vestidos de verde e cinza chegam para reforçar o piquete britânico - entre eles reconheço Marc, o agente do British Indian Department.
A troca de tiros de mosquete e de canhão entre os dois lados continua, e quando os americanos ameaçam avançar, Marc resolveu mostrar que estava disposto a representar com rigor o papel ambíguo a que se propunha. Ele simplesmente virou as costas e saiu correndo em direção à retaguarda, abandonando o campo de batalha. Um dos Royal Scots ainda disparou na sua direção, mas o agente indígena conseguiu desertar com sucesso. Ele bem que tinha avisado que estava “nessa só por causa do dinheiro”...
A essa altura já consigo contar três baixas do lado britânico, com os feridos (ou mortos) estendidos na grama. A coisa está ficando feia e os Read Coats tentam entabular alguma forma de negociação com os americanos, pelo menos para que os dois lados pudessem atender os feridos. As delegações dos inimigos se encontram no meio do campo, mas parece não ter havido acordo e o combate recomeça, com os homens abatidos deixados onde estavam.
Uma nova companhia de soldados ingressa no cercado para reforçar o piquete canadense, mas o dia já estava perdido para os britânicos. Depois de mais algumas baixas, um novo encontro de oficiais decreta o fim da batalha e os casacos vermelhos se retiram, derrotados. Entre eles vejo Marc, que atendia um dos companheiros caído.
Os reforços chegam, mas já era tarde demais para salvar o dia para os casacos vermelhos
O narrador usa o poder do microfone para curar os feridos e ressuscitar os mortos, pedindo um minuto de silêncio em homenagem aos que morreram há 200 anos na guerra de verdade, não muito longe dali. Depois de uma salva de palmas, os inimigos deixam o campo de batalha, abraçados.
Hoje os canadenses perderam, mas no dia seguinte eles retomariam o combate, para garantir que nem no reenacting houvesse risco de eles se tornarem americanos.

No link a seguir há um vídeo curto dos reenactors em ação na Fanshawe Pioneer Village:
https://youtu.be/CtPXEH3B4Gc

Para quem quiser saber um pouco mais sobre reenacting, o link abaixo tem informações da Upper Canada Military Re-enactment Society, que estava no folheto que o recrutador me entregou:
www.royalscotsgrenadiers.com